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21 de fevereiro de 2013

UM BREVE COMENTÁRIO: YOANI, CUBA E FRASES PRONTAS.

A julgar pela repercussão da visita de Yoani Sánchez ao Brasil, Cuba continua despertando interesse e gerando polêmica. O que não deixa de ser positivo considerando que a maior parte dos brasileiros, devido à tendenciosa cobertura de mídia, geralmente está voltada apenas para o que acontece na Europa e, em especial, nos Estados Unidos. Entretanto, é evidente que os termos dessa polêmica ainda são essencialmente dados também por essa mídia. Assim, Cuba passou por uma “revolução sanguinária”, marcada pelos “paredões”, pela “perseguição política”, pela “morte de inúmeros presos políticos”, é vista como “ditadura”, e, para não fugir à moda, acusada de “cercear a liberdade de expressão” ou “violar direitos humanos”. No geral, parte considerável das opiniões nas redes sociais acompanha essa leitura sobre a realidade cubana. Discordo radicalmente dessa visão, não por achar que Cuba é o paraíso, mas simplesmente porque essa perspectiva não se sustenta a partir das evidências históricas e dos dados apresentados por inúmeras instituições internacionais (Em sua maioria, insuspeitas de qualquer simpatia à Ilha). Obviamente, a sociedade construída após a Revolução Cubana, em 1959, possui problemas, inclusive no seu modelo político. Dessa maneira, Cuba se constitui como um desafio: através da manutenção de uma sociedade igualitária, como ampliar as formas de participação e expressão popular? É nesse sentido que as reformas necessárias em Cuba devem ser pensadas, pois desconfio que a transformação da Ilha em um “capitalismo sui generis”, como defende Yoani Sánchez, apenas reconduziria Cuba ao mesmo lugar de desigualdade e miséria que marca boa parte dos países vizinhos na América Central.

Infelizmente, pelos próprios limites das redes sociais, não é possível aqui discutir todas as matizes que a história cubana tem. Contudo, em um cenário onde a leitura que fundamenta parte dos comentários são livros como o Guia politicamente incorreto da América Latina, vale sugerir alguma outra referência que não seja movida exclusivamente pelo desejo de desconstrução da política de esquerda no nosso continente. Nesse caso, uma leitura interessante é A Revolução Cubana, de Luis Fernando Ayerbe, livro publicado pela Editora Unesp. Com certeza, não tem a mesma linguagem “engraçadinha” ou o conservadorismo disfarçado de “politicamente incorreto”, mas é um livro escrito por um estudioso que se preocupou em consultar fontes diversificadas e originais sobre o processo político cubano. E isso é muito valioso, se o interesse é conhecimento sobre Cuba e não a repetição de frases prontas.

Por sua vez, mesmo compreendendo que a discussão sobre Cuba é predominantemente formada por opiniões baseadas em noticiário televisivo e tais “guias especializados”, defendo o direito de cada um emitir sua opinião, até no caso da dita opinião ser apenas uma besteira. Dentro desse princípio é que situo o direito de Yoani Sánchez dizer o que quer que seja. Não à toa, li várias postagens do seu blog Generación Y e, particularmente, vi problemas concretos utilizados para convencer o leitor que Yoani vive dentro de uma atmosfera opressiva e um mundo de privações de consumo: cada ato dela é descrito como quase alvo de uma repressão que se insinua, mas oportunamente nunca a impede de falar (O “quase” não é coincidência). A narrativa é pessoal, mas a intenção é espelhar o que falta ao povo cubano em geral. Diante disso, a sentença que atravessa todos os textos da blogueira é simples: a culpa é do regime! O conveniente é que a realidade econômica e histórica da Ilha é absurdamente descontextualizada: por exemplo, para ela as sanções impostas pelos Estados Unidos são apenas uma “justificativa” para os erros das autoridades cubanas e raramente são citadas. Sem dúvida, é uma “impressão pessoal” sobre a situação cubana e ela tem todo o direito de tê-la, mas essa visão dificilmente se sustenta como “a” verdade sobre Cuba como tanto quer a grande mídia brasileira e mundial. A quem tem interesse em averiguar essa afirmação, sugiro a leitura da entrevista concedida pela própria Yoani Sanchéz ao jornalista francês Salim Lamrani. Em tempos de jornalismo raso, é importante ressaltar que Salim Lamrani é ensaísta especializado nas relações entre Cuba e EUA, doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos pela Universidade Sorbonne (Paris IV), professor e pesquisador nessa instituição e várias outras. A entrevista em português se encontra disponível, entre outros endereços, emhttp://www.viomundo.com.br/entrevistas/salim-lamrani-um-bate-papo-com-yoani-sanchez.html (O áudio também se encontra disponível na rede para quem quiser conferir). A entrevista é longa, o que foge ao feitio do que mais circula na rede, mas essencial para quem não quer se restringir à superficialidade. Como visível nessa entrevista, não há nada que justifique impedir o pronunciamento da blogueira cubana, como equivocadamente aconteceu na última segunda-feira à noite: não só pelo direito de livre expressão ser fundamental, mas porque qualquer pessoa razoavelmente informada pode contrapor-se à fragilidade dos seus argumentos.

Jhonatas Monteiro

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