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22 de novembro de 2018

'...todas as cartas são...'




Cartas, ah, as cartas de antigamente. Só quem cresceu escrevendo e recebendo cartas entenderá meu saudosismo. As cartas eram ansiosamente esperadas, talvez porque fossem as respostas ao que havíamos perguntado, mas também porque eram, sim, um bálsamo finalizador e curador da tal ansiedade em recebe-las.

Para mim era sempre um ritual escrever cartas. Desde pequena minha mãe me ensinou toda uma aristocrática e tradicional forma de escrever cartas, do início ao final, até à postagem. Me colocava sentada na mesa da sala grande da casa onde morávamos, pegava aquele bloco de papel que era específico para escrever cartas, com aquelas folhas fininhas, delicadíssimas, e, de início, por ser pequena, escrevia com lápis, para poder apagar os prováveis e normais erros pueris.

Aos poucos pude ir escrevendo de caneta. Começava sempre e invariavelmente com o cabeçalho, tipo: "Itapetinga, 22 de novembro de 1975". Depois, cerca de 3 linhas abaixo, a saudação: "Querida prima, Laura" (com quem me correspondia sempre). Mais 3 linhas abaixo, considerando o que chamaríamos hoje de margens, recuos e espaçamentos, começava o texto, quase sempre dando as noticias dos meus estudos, notas na escola, causos da família e etc. Para finalizar, o ultimo parágrafo devia ser sempre com desejos de saúde, harmonia e informações sobre desejo de rever e saudades.

Quando cresci, mandava cartas, muitas cartas aos amigos, admiradores, agora com papéis de cartas decoradinhos e, sempre amava, com todas as minhas forças, amava, receber as respostas. Ver aqueles envelopes endereçados a mim, com meu nome como destinatário, era de um prazer indizível. Abrir, sentar em meu quarto com o coração aos pulos e começar a ler aquela vida dentro daquele papel era como tocar a pessoa. A caixa de cartas era uma galeria de mais vida ainda, com palavras saltando e pessoas, boas e ruins, tagarelando ali dentro. Rasgar uma carta era matar seu ódio, era desenergizar a relação, era guilhotinar sentimentos.

Dali saíam risos, choros, despedidas, reconciliações, curas, amores e muitos sentimentos diversos. Esse controle de emoções, esse hiato entre escrever e receber as respostas era, ao mesmo tempo, devastador e sensacional. Mas, dizíamos. Escrevíamos, registrávamos ali, documentávamos no papel tudo que estava em nossa mente e sentimentos. Não tinha mais para onde correr. "Mas, você escreveu isso naquela carta!". Ouvi de alguém que não escreve mais nada a alguém com receio do compromisso ou comprometimento documental que isso implica. Que lástima.

O etéreo significado disso de vez em quando me vem à cabeça, porque hoje temos tantos meios rápidos e instantâneos de comunicação e somos muito, mas muito mais ansiosos e não conseguimos curar essa nossa ansiedade. Me impressiona o fato de já ter testado meio que me 'afastar' de alguém, apenas me afastar, sem nada lhe escrever, sem nada lhe dizer, apenas para testar a sua proximidade, seu carinho, a importância que dá a mim e à nossa relação, dentro de uma periodicidade íntima que travávamos e simplesmente, nada. O 'amigo' não lhe procura mais, não escreve, não sente a sua falta, ou, se sente, apenas não lhe diz. Por que?

Dizíamos, escrevíamos nas cartas tudo que tínhamos a dizer, já que, se estávamos longe (ou mesmo perto), talvez não tivéssemos mais outra oportunidade. Hoje podemos dizer LOGO e não o fazemos. Lembro que já reatei namoros que achava impossíveis serem resgatados, escrevendo uma carta para o rapaz e, que delícia receber flores como resposta ou um bilhete ou recado através de um amigo para aquele sorvete reconciliador.

Das cartas, com as caligrafias, entendíamos as alterações de humor, a raiva, o amor. Postais de viagens, enviadas todos os dias, dos lugares aonde passavam os amigos e familiares eram sinais de muito carinho, porque o movimento de comprar, escrever, postar, nos dava a deliciosa sensação de pertencimento. Sim, sou extremamente saudosista e morro de saudade daqueles dias, daquele tempo. 

As cartas documentavam as relações e nenhum e-mail ou mensagem em tempo real supera aquele barulhinho de cartas sendo abertas e até de canetinhas perfumadas. Nenhum 'inbox' saberá guardar tão bem e depois divertirá tanto. É lembrar com carinho apenas, agora, transformar, se adaptar, se conformar com a volubilidade do que se diz e se escreve, tão rapidamente, hoje. Sem mais caixas para guardar absolutamente nada.

2 de novembro de 2018

Como a VIDA devia ser.

'Eu acho que o ideal seria que as pessoas nascessem velhas e morressem crianças. O homem nasceria com 90 anos, ia ficando mais moço, mais moço, até morrer de infância. Nascendo com 90 anos, você aos 65 se casaria com uma mulher de 59, mas e a recompensa? A cada dia, a cada semana, a cada mês, ela ia ficando mais nova, mais nova, até se transformar numa gata de 20. Entendeu? E, depois do casamento, vocês dois ficariam noivos, seriam namorados, até chegar ao amor infantil, branco e desinteressado... mãos dadas... (no máximo) e apagando das árvores, os corações entrelaçados.Você nasceria rico, aposentado e sábio. Começaria a ganhar cada vez menos... até entrar para a Faculdade para ir desaprendendo tudo e ir ficando mais ingênuo e mais puro. Depois a bicicleta, o velocípede, desaprenderia a andar, esqueceria como engatinhar, o voador, o cercadinho... do cercadinho pro berço, as fraldinhas molhadas, três gotas de Otalgan para a maldita dor de ouvido, o chá de erva doce para a dorzinha de barriga...a mamadeira de água, o peito da mãe e, num dia qualquer, pararia de chorar. Com o tempo correndo para trás, a humanidade regrediria nos séculos até aparecer o último homem: Adão. Último-primeiro quando então, pegando-o na mão, ao invés de soprar sobre ele Deus inspiraria o homem outra vez para dentro de si mesmo.'

Chico Anysio

10 de outubro de 2018

Poema declaratório.

Declaro meu voto para o 2º turno 
com este poema do incrível Vicente Campos.

Eu voto na gota serena
No filho do cramunhão
No rabo preto do cão
Na coceira da urtiga
Num fi de rapariga
Num caminhão véi Fenemê
Num saci bem pererê
No pentei do cururu
Voto em catinga de cu
Mas não voto no PT.

Eu voto numa mandinga
Voto em catinga de bode
Em comigo ninguém pode
Num ferrão de mangangá
Num abraço de um guará
Numa topada sem querer
Numa moita de muçambê
Em fumaça de caminhão
Me lasco na contramão
Mas não voto no PT.

Voto no negão do zap
Nas putas do cabaré
Num espirro de rapé
Num porco velho nojento
Na espada do jumento
Na lama do Tietê
Num bêbo que quer beber
Num ferro quente em brasa
Voto num carai de asa
Mas não voto no PT.

Eu voto numa mazela
Numa surra de imbira
Na curva que o carro vira
Na puta que o cão, pariu
Na ralé desse Brasil
Nos homens do PCC
Até no MDB
Na onda de um tissunami
Eu voto em qualquer infame
Mas não voto no PT.
Eu voto em qualquer um
Até no Kim Jon-Yun
Mas não voto no pt!

7 de outubro de 2018

Cambada.

Aí eu resolvi ir a um posto de saúde da família próximo à minha casa. Ouvi falar que atendia lá um médico clínico geral renomado e lá vou eu. Havia passado por lá antes para agendar o agendamento e nem vou contar essa parte senão esse texto ficaria maior do que já vai ficar. Certo, marcado para as 8:00hs da manhã do day after, lá estava eu às 7:00hs, Caxias que sou. Ao chegar já estavam umas 15 pessoas, do lado de fora, em pé, na chuva. Às 8:10hs chegou o segurança em sua moto, ainda bocejando, abriu o portão e as portas daquele quase inferno, sujo, cadeiras quebradas, bebedouro amarrado e remendado e quebrado, tudo sem o menor cuidado. Fui logo sendo a porta-voz da fila, perguntando sobre o tal horário marcado. Claro, já tinha ouvido das senhorinhas na fila que a 'moça' da recepção só chegava às 8:00hs e que TODO MUNDO ESTAVA MARCADO PARA O MESMO HORÁRIO, como sempre, mas, mesmo assim quis me certificar com o sonolento segurança.

Oi? É isso mesmo, que todos ali estavam marcados para o mesmo horário? Na fila estava uma garota, jovem, bem arrumada (assim como eu) que logo se manifestou com um sotaque sulista sobre o fato da aglomeração de pessoas para um mesmo horário marcado. Dela falarei posteriormente. A briga já começou para saber quem chegou primeiro, antes e depois, quem tem prioridade e etc. Até ameaça de morte eu presenciei e segundo me informaram, sim, já quase se mataram ali, por ser uma área onde o tráfico passeia livremente e impõe suas regras, já que está entre uma área nobre e uma favela. Lembrei, então, que estou no Brasil, na Bahia, no Nordeste. Me informaram que quando a Secretária de Saúde do Município visita o Posto, uma vez em cada nunca, eles arrumam, maquiam, chegam no horário e ATÉ COPOS DESCARTÁVEIS COMPRAM. Eu ri pra não chorar.

Sim, eu sei que os perrengues em filas de atendimento médico, mesmo que particulares, dentro de uma subserviência aos Planos de Saúde também não são legais. Mas eu nunca fui a um atendimento particular, mesmo que espere bastante, para ao menos não ter um ar condicionado ou um copo descartável, um chão limpo e a sensação de que você está pagando por um serviço. Experimente ir a um posto desse e compare. Fiquei ali aguardando o médico porque eu quis sim ver isso tudo de perto. E sim, eu pago por aquilo ali.

Pude ver aquela profissional responsável pelos dentistas chegar arrastando os pés e com a cara muito, mas muito feia e sisuda gritar, sim, gritar muito alto: 'Quem vai querer marcar dentista aí, CAMBADA?'. Cambada? Senhoras, velhinhas, portadores de necessidades especiais, gestantes, gente, pessoas. Fiquei ali pra ver aquelas pessoas vestidas como quem estavam em casa na faxina e o posto de saúde, aquela humilhação toda, parecia a extensão da sua casa, dos seus hábitos, da sua rotina. Lamentei por elas. Lamentei pelo cheiro delas e pelo cheiro daquele lugar. Apenas lamentei e lembrei das promessas dos candidatos populistas, que dão a esse povo as migalhas para se sentirem 'empoderados', mas o que lhes é de direito e lhes imputam DIGNIDADE, isso não dão. Eles desconhecem isso. Essas pessoas não sabem o que é o melhor, se só conhecem o pior. Como diria a mãe de uma amiga: 'quem é do chão não quer colchão'.

As 10:30hs fui atendida pelo médico, já quase indo embora. A moça com sotaque sulista estava grávida e foi marcar seu Pré Natal. Me disse que conheceu o marido lá no Paraná e ele é daqui da cidade. Vai passar algum tempo aqui e gostaria de fazer o pré natal pelo SUS e ali estava. Me disse que fez seu acompanhamento do primeiro filho lá e que o agendamento é online. As pessoas ligam para confirmar e quando chegam, já recebem a senha para aguardarem, sentadas, no ar condicionado (quando precisa, pois é frio o clima geralmente) e claro, o tratamento era totalmente diferente. Eu saí e ela ainda não havia sido atendida.

Não, eu não volto mais ali, mesmo tendo conseguido que o médico me encaminhasse para outros, que me passasse medicações e me deixasse tranquila com relação a exames de rotina. Eu não mereço aquilo ali, mas, quem merece? Desafio a qualquer fanático político de uma esquerda que predominou esse País tantos anos a passar por isso. Me expliquem. Me digam, por favor, em que a Saúde pública melhorou se perto da minha casa eu não vejo isso? Onde está aquela propaganda dos Governos? Me digam, podem me dizer mesmo, como NENHUM setor teve nada de melhor ou mudou? Tratam-nos como animais. Uma pessoa veio me dizer que eu votasse em um dos candidatos dessa dita esquerda porque eles tratam as pessoas como 'gente'. Onde mesmo? Nas escolas? Na saúde? No narcotráfico que impera e só nos assusta? 

Sim, me sinto envergonhada quando lembro dessas situações porque teria mais umas duas que poderia contar aqui, mas não é necessário. Vá lá ver. Vá marcar um exame em postos credenciados pelo SUS. Tem um ali ao lado do Hospital D. Pedro. Os pobres coitados, aquela gente fica em pé, no sol, na chuva, senhores, senhoras, doentes em tratamento de câncer (vi uma senhora que saiu da radioterapia desmaiar na fila), crianças, mães com bebes de colo e quando começam a ser atendidas, são como gado indo para o matadouro e os seus algozes tocando a manada. E outros pobres coitados no atendimento, porque foram indicadas e usam cabrestos, em troca de uma miséria de salário. Me arrepia dizer isso, mas são sem nenhum coração esses bandidos que desviam verbas bilionárias da saúde. Nem vou entrar na Educação e no aparelhamento da segurança e etc.

Sim, eu tenho vergonha desse País, dessa situação e meu sentimento é de total indignação. Esse País precisa levar um choque de realidade, precisa acordar para o menor, precisa ouvir todos os lados, mesmo que lhe embrulhe o estômago, precisa saber que não é tirando do rico que o pobre vai ter, mas é dando dignidade a todos, sem distinção, é extirpando a ganância da corrupção, é com Educação, valores mesmo, muitas vezes tradicionais que ao menos mantemos as coisas nos seus lugares. Chega! Não merecemos mais tanto desrespeito e empoderamento não é só aceitar cachos e gays, é ter dignidade em ser bem tratado nos serviços mais elementares e primários, INDEPENDENTE DE QUEM E O QUE VOCÊ SEJA! 

Eu não vou mais ali, assim como nunca mais acredito em promessas de governos populistas. Vá lá fazer um laboratório, leve seus filhos nesses postos, coloque em escolas públicas e depois venha me dizer. Vamos nos indignar juntos, aí sim, sentirei que seremos todos iguais.

6 de outubro de 2018

Estatinas.

Dia 1º de outubro é o dia do idoso. Na verdade é um dia que tem como objetivo a valorização do idoso. Um dia para lembrar de nós todos, de como será nossa vida quando essa época chegar. Ninguém, a não ser os que morrem, está livre de ficar idoso. Ou seja, vou te contar uma coisa, você também vai ser um idoso. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define o idoso como aquele indivíduo com 60 anos de idade ou mais, limite este válido apenas para os países em desenvolvimento, como o Brasil, pois nos países desenvolvidos admite-se um ponto de corte de 65 anos de idade. Ponto. É isso mesmo, você que já está na casa dos 40, daqui a vinte anos já se tornara um idoso, você que está com 50, daqui a 10.
Comecei a ter certa vontade de envelhecer logo, acredite, a partir do momento que comecei a ficar cansada de responder a tantas questões que a tal jovialidade me imputa. Quero ver meus filhos dizendo que vão ali visitar a sua 'velha', já me vendo e sabendo velha mesmo, sem JÁ ouvir isso hoje e nem ser ainda, digo isso, entre risos. Em um determinado momento  nos sentimos numa linha limítrofe entre o que você fez da sua vida e o que você não fez, para daí imaginar como será sua velhice. Conheço pessoas que trabalharam a vida toda em algo que não gostavam, passaram a vida toda acordando para trabalhar parecendo que iam para a forca e agora também não sabem o que fazer, como se comportar, gastam seus dias em um vazio, perdidas. Entendi que minha velhice começou naquele dia que aquele moço me chamou de coroa. Comecei a me dedicar cada vez mais ao que eu gosto, sei, domino, a arte do crochê, bordados, artes manuais, leituras de todos os gostos, além de cultivar a alegria e a vivacidade, independente do que tenha que doar ou jogar fora, como as benditas saias curtas.



Sempre penso na minha velhice como algo que já está acontecendo faz tempo. Na verdade, na primeira vez que alguém me chamou de coroa, tive um ataque. Eu não me sentia coroa e estava a todo vapor, ativa em todas as áreas, me sentindo ainda uma gatinha, de saia curta, nas baladas e não enxergava onde estava o ponto em que aquela pessoa se apegou para me chamar de coroa. Tinha por volta de 40 anos. Ao mesmo tempo, dentro da minha rotineira autoavaliação, fiz um autocheckup pormenorizado e percebi que, mesmo sendo já uma coroa, tinha elementos bem substanciais que não me faziam AINDA me sentir como tal. Mas já era uma e tinha que aceitar.

Desde muito nova eu sou completamente apaixonada por algumas coisas que as pessoas acham que são coisas que só velhos gostam: crochê, artes manuais, são algumas destas coisas. Em um determinado momento sim, EU doei as saias curtas, fui perdendo o interesse pelas tais baladas e percebi que a maioria não me chamava mais de coroa e sim, de 'SENHORA'. Sim, eu tive outro meio ataque, ainda bem que o ter sido chamada de coroa, antes, já tinha me ajudado a diminuir um pouco o trauma. Ouvi da minha irmã outro dia que ia já procurar um geriatra porque quer sim envelhecer bem. Ela tem cinquenta e poucos anos. Está certa.


Alguns poderão me dizer que eu poderia continuar a usar as tais sais curtas se eu quisesse. Sim, eu escrevi o EU doei com letras maiúsculas para grifar que isso fui EU. Se você tem 50, 60, 70 e quer continuar a usar suas minissaias, fique a vontade. Assim como as curtas saias, os devaneios apaixonados, a saga sexual-animalesca-afetiva, os arroubos conjecturais políticos, as vaidades excessivas, sempre brinco que já usei, fiz, tive, tudo, absolutamente tudo em alto grau de envolvimento e adquirência que cansei, não quero mais algumas e outras tantas, nem quero, nunca mais. Simplesmente rejeito, doei, joguei fora, abstraí, cortei de mim, afundei junto com um barco cheio do que julgo supérfluo e nem sofro por nada destas coisas.
        
Mas isso sou eu. De outro lado, o que sou hoje sim, já me determina no que serei amanhã. Eu não fiquei em um casamento que não queria porque tive pena de mim e não me imaginava sozinha, abandonada, velha e sozinha. Arregimentei amores e relações outras e de outros níveis tão elevados que  o cultivo destas, mesmo que sejam poucas me fazem ter a certeza absoluta de que não estarei sozinha nunca. E sabe? Casas de repouso nem são tão ruins assim. Por que seriam, se terei tempo para rir, jogar conversa fora, rir de mim mesma, fazer meu croche e ver a Netflix em paz? E minha paz interior eu terei, com fé em Deus, onde estiver. 

Sim, e você? O que você sabe fazer? Do que você gosta? O que vai lhe ajudar a passar e preencher seu tempo quando você for, daqui a pouco, considerado velho? Naturalmente seu vigor decai, em várias instâncias. Daqui a pouco você não vai mais fazer o sexo que fazia quando tinha 20 anos, não vai mais poder comer nem beber de tudo que bebia como antes. É o ciclo natural das coisas e pasme, sua felicidade e satisfação pessoal tem que vir na frente de tudo isso!

Me sinto extremamente feliz hoje em saber que, apesar dos remédios para pressão arterial, das estatinas e demais atenuantes das naturais patologias geriátricas, estou sim me cercando de tudo que gosto de fazer e que, vivi uma vida recheada de opções que preencherão meus dias, quando eu chegar lá, se chegar, claro. A morte me é todos os dias uma grande realidade e também peço a Deus que me leve antes dos que amo, porque lidar com ela ainda me é algo meio sem graça, mas isso é papo para outro texto. Me imagino é velha, sim, sempre, já que a graça de poder dizer tudo que quiser dizer, dançar desconectada, contar piadas obscenas, dormir muito, dar conselhos, curtir os netos e bisnetos sem maiores responsabilidades e fazer meu crochê em paz, só me enchem os olhos. 

App Oldify, que envelhece.
Na verdade ele me deformou.

Posso até já estar bem velha e não saber, quando penso que aquele velho não deveria estar ali ou quando sou bem ranzinza, ou ser uma jovem-coroa-senhora embevecida pela expectativa de envelhecer. Apenas quero entender e ter a consciência de que vivi intensamente. Passado, presente e futuro são cubos com 3 lados e todo velho deveria saber disso. Já sou velha demais para saber que não sou mais tão jovem e jovem demais para saber que sim, já estou quase velha, parafraseando a Sandy do Junior. Ah, que bom, tenho meu crochê e uma tal certeza, que me faz aceitar o fato de que, entre um ponto e outro, sou quase imortal.




3 de outubro de 2018

Aperto de pé...

"Amiga ontem eu sentei aqui e meu pai ligado... aí botei mais um filme... escolhí JUMANDI... kkkk... nunca assisti... meu pai agora qdo eu sento aquí perto dele ele aperta meus dedos do pé, minha mão... assim, brincando comigo, sabe? Ele não fala muito, mas ontem riu muito assistindo o filme e olhava pra mim e se comunicava fazendo caras e bocas... Amiga não consigo nem colocar as em palavras a alegria que senti com esse momento raro de meu pai se comunicando comigo... brincando comigo como sempre brincou qdo nao tinha dementia...Esses momentos de ontem que vc teve com Daniel, curta muito amiga! Faça mesmo esses encontros semanais com ele uma coisa leve e gostosa, faça uma coisinha que ele gosta de comer... converse coisas que vão estimular o crescimento espiritual dele... são momentos amiga que ficam eternos dentro de nós!"


Um trecho de uma conversa com minha melhor amiga, que mora no Texas, distante geograficamente, mas, perto, muito perto, no coração. Trilhamos juntas vários caminhos desde à adolescência. Nunca, absolutamente nunca brigamos. Nunca, absolutamente nunca tivemos nada que não disséssemos uma à outra, mesmo que isso fira, doa e despedace. Da mesma forma não dizemos muitas coisas, em respeito uma à outra e algum dia, dizemos, quando queremos.Pastor James tem hoje Dementia e D. Ila também problemas por conta de um AVC.

Quis o Universo, Deus, que eles não brigassem, não se acusassem, passassem por isso juntos e não vou entrar em detalhes acerca das 'doenças'. Esse relato acima foi da minha amiga, que cuida dos pais com todo amor e só me emocionou, porque comungamos da certeza de que todos os dias acordamos para ser felizes, apesar das circunstancias. Nosso 'feel good' virou uma bandeira levantada na maior altura.

Conheci o Pastor James, Pastor evangelista Metodista, pai dessa minha amiga no mesmo momento da vida que a conheci. Um 'gringo' alto, lindo, engraçado, ativo. D. Ila, sua mulher e mãe da minha amiga, uma 'gringa' também alta, linda e que me ensinou a fazer a respiração correta e de cachorrinho quando fui ter Daniel, meu primeiro filho, sob o olhar atento e risonho da minha mãe. Ambos tinham o sotaque ainda pesado e engraçado, trocando palavras do inglês. Era um ambiente que eu nunca havia presenciado de muita descontração e energia sem iguais.

Passamos todos os dias por várias aflições, problemas, situações ruins e avassaladoras, mas, minuto a minuto resolvemos simplesmente prestar atenção nas mínimas coisas, nos sopros de vida que a própria vida nos dá, nas energias positivas ao nosso redor a nas lições espetaculares e fantásticas que tiramos desses sopros, as vezes bobos e que pros outros não significam nada.

Foi um presente que recebemos, essa certeza. Dissolvemos as crenças que nos limitavam e até nos levavam a acreditar que não somos merecedores de uma felicidade que merecemos sim! Passamos a cultivar segundo a segundo a energia da Gratidão e, mesmo sendo difícil, a transformação mágica e instantânea que acontece dentro da gente é impressionante. Diga que é clichê, mas não ligamos. É LEI. Dizemos sempre uma à outra que 'agora é que somos verdadeiramente CRENTES!'.

Daniel, meu filho e meus pés.
Meditar, se auto conhecer, tratar do espiritual aliado ao emocional é trocar químicas por tratamentos naturais para as questões emocionais que TODOS estão passíveis de viver. Agradecer antes de tudo é agradar aos céus. Para que estou passando por isso agora? E temos logo a resposta, já que antes já agradecemos pela mesma.

Ainda tenho o grande desafio de aprender a lidar com quem ainda é duro, frio, passivo diante da vida, que não procura aproveitar esses momentos que ela citou ali. Aceitar amigos e familiares indiferentes aos pais, aos irmãos, reclamonas e sem a mesma energia circulante que desejo, mas tenho certeza que esse desafio vai sendo vencido, lançando ao redor esse pozinho de pirlimpimpim, mágico e Divino, até que a blindagem do amor não me deixe mais 'sofrer' por e com essas pessoas.

Entender o sentido da vida, do amor, dos momentos, nos fez, a mim e a essa minha amiga (que foi quem me deu esse presente dessa consciência em um momento meu muito ruim) aprender também o que é a felicidade. Uma 'luta' diária, guerreada com armas de muito, muito prazer, simplicidade, sucesso, manifestações incríveis de desejos bons e de muita, muita ternura de vida. A vida aperta nosso pé, numa brincadeira deliciosa, subjetivamente cósmica e avassaladoramente perfeita. Nós sorrimos de volta.

10 de junho de 2018

50 tons de Tudo.

Um filme. Aquele filme que sempre passa em todos os aniversários, mas dessa vez é um filme pra la de Noir. É um filme cheio de Tarantinos e Goudarts, cheio de muita emoção e porque não dizer, chanchadas. Passa um filme como se você fosse da protagonista, mocinha, doce e lânguida, à vilã, má e sem nenhum coração.
Um filme com tantas, tantas aventuras e tantos erros e acertos, que na hora que esse filme passa, nem respirar se consegue. Dos dias em que se achou que não iam acabar até os dias em que se faltou respiração, de alegria. Sim, está passando um filme, um filme com uma excelente trilha sonora, onde os músicos também dançam e são atores nas cenas principais.

Um filme em que, só agora, houve a descoberta de que sou parte fundamental da Direção, do roteiro e não mais apenas atriz. E isso fez desse filme o melhor filme. Um achado, uma Graça, uma alegria sem fim e inabalável. Um filme de uma vida cheia de vivências interiores sutis e explícitas, impressionantes e impressionáveis, que filme nenhum de suspense teria. 

Fotografias e enquadramentos ora perfeitos, ora humanamente imperfeitos. Surrealismos pungentes e segundos e segundos de emoções. Cada segundo desse é vivido com fôlego em alta vibração. Um filme de época e totalmente e intencionalmente saudosista, sem mais culpas. Um filme, portanto, emocionante.

O filme onde parece que o objetivo foi cumprido, o de emocionar, pulsar, sentir, vibrar. Os arrependimentos por vezes latentes deixam de querer roubar a cena, dando lugar a reconquistas de novos sentimentos, lugares e pessoas. Nada abala, apenas as coisas que são interiores, que não fazem bem, aí, se trata logo de trocar de posição, que fica tudo bem. 

Entre risos digo sempre que já posso morrer. Não tenho medo da morte, apenas constato que se há alguma coisa a viver com mais intensidade do que já vivi, de agora pra frente será só lucro, porque já estou por demais satisfeita com esse filme. Cinéfila que sou, apaixonada pelos grandes dramas, séries fortes e algumas comédias até e ‘sessões da tarde’, digo que esse filme da minha vida que está passando, é o melhor filme que já assisti.

Sigo acompanhando essa Direção, esperando esse filme envelhecer numa estante ou na lembrança de algum cartaz. Ou ser raro, arquivado em algum acervo de vidas compartilhadas. Sigo assistindo e vivenciando quadro-a-quadro, expectando cenas cada dia mais felizes, naquele The End perfeito, lúdico e inesquecível.

25 de maio de 2018

leds

Um lugar escuro, sombrio, com uma rampa de entrada imensa, os espaços reservados para as garagens de cada carro muito apertados, separados por pilastras de sustentação, daquele lugar que mais parecia um calabouço de filmes antigos. O cheiro era de mofo e umidade. A garagem que alugamos para guardar nosso carro e eu teria que retirar o carro e guardar todos os dias, ainda aprendendo a dirigir, era esse.

Quando casei (ainda muito nova), a casa onde morávamos não tinha garagem e tivemos que alugar uma garagem numa quadra próxima. Recebi uma ligação do marido que havia tido um pequeno acidente e seu pé havia sido imobilizado e eu teria que ir buscá-lo no trabalho. Como sempre fui muito abusada, embora não soubesse dirigir ainda de forma que soubesse também tirar e colocar o carro daquele lugar e embora estivesse morta de medo, insegura, tremendo, disse que iria.

Lembro que, sozinha, na primeira vez, além de ir até o lugar, a noite, entrei no escuro, sentei naquele carro olhando aquele lugar e só queria sair dali. Precisava conseguir. Para colocar o carro a dificuldade era muito maior, já que tinha que arruma-lo naquele mínimo espaço de ré, para facilitar na hora da saída. Só que o espaço de sair, quando haviam outros carros, também era tenebroso. Vai na frente e dá ré, vai para a frente e dá ré. Engata a primeira e sobe agora naquela rampa apertada e alta sem parar, porque se parar, o carro desce e pode bater o fundo no chão ou em outros carros. 

Certo, conseguia, com medo mesmo. E comecei a dirigir daí. Umas amigas se espantaram e me perguntaram como eu havia conseguido dirigir, dominar a direção com tanta segurança daquele jeito em tão pouco tempo. Ladeira pra mim já era fichinha daí em diante.

Lembrei disso hoje, ao sair de um estacionamento parecido, onde também tinha uma rampa de entrada alta, íngreme, alcantilada. Nenhum medo, nenhuma insegurança, nenhuma tensão. Nada me aterrorizava mais, já que esse tipo de desafio já não faz mais meu coração tremer, nem afunda minhas emoções. Subi como se estivesse comendo um pudim, que adoro. O cheiro de mofo e a rampa íngreme me fizeram lembrar do quanto eu cresci, evoluí, me curei, afunilei meus desafios e medos. 

Uma felicidade imensa em saber que tudo passou e eu subo, desço, refaço, entro, saio, busco, consigo e alcanço meus objetivos e inseguranças emocionais com a segurança de quem já experienciou uma vida. Me importa saber que preciso me valorizar e valorizar meus aprendizados e sucessos. Tinha e tenho medos sim (ainda), mas eles vão se congelando e quanticamente os rejeito, trocando por sentimentos de desejos positivos. Entendi que já fazia isso, inconscientemente.

Meus cantos escuros, sombrios já não são mais assim. Clareei com luzes imensas, fortes, positivas, 'leds' que nunca se apagam e que não se apagarão nem quando eu morrer. Deixarei sim, luzes espalhadas por onde eu andar, por onde eu estiver e passar. Não tive nem terei mais dificuldade nem de sair, nem de entrar em lugar nenhum porque a expansão da consciência dos 'porques' me conduzem e nada, nada mais vai ser ao acaso. 

Eu precisava ter alugado aquela garagem, meu marido precisava ter tido o problema na perna, eu precisava sentir aquele cheiro de mofo e quase sempre chamar por minha mãe e chorar até, com medo, pavor e insegurança naquele tempo, para poder hoje enxergar ladeiras íngremes como se fossem 'pudins'. Superação e experiência, viver e alcançar, sair e chegar, porque eu estou aqui para SER, mudar e sempre, sempre voltar ao que me faz ter a certeza de quem sou hoje.

8 de março de 2018

Desisti de ser mulher.


Eu desisti de ser mulher por tantas e tantas razões mais que escreveria um livro de mil páginas. Obviamente o externo me mostra como uma e surpreendentemente ou metafisicamente meus espaços tenham ficado livres para que eu seja além do que se vê. Desisti de ser mulher e ser delicada. Desisti para ser inteligente e sagaz. Desisti para ser livre. Desisti de ser mulher para bordar minha vida com singeleza, chorar por conta dos hormônios contraventores e morrer de amor quando eu quisesse. Ou nunca mais quisesse.

Desisti de ser mulher. Nenhuma androginia, apenas desisti de ser mulher. Desisti naquele dia que, sentada na carteira da escola, aos treza anos, um sangue quente molhou minha calça, a carteira e eu fiquei assustada, sem saber o que fazer direito. 

Desisti também naquele dia que aquele rapaz com cara de santo que frequentava meu primeiro local de trabalho veio por trás de mim e me agarrou, prendendo meus braços, eu com 17 anos e ele com seus trinta e poucos. Fiquei sem movimentos, presa e com muito nojo e quis ser homem naquela hora. Eu bateria nele, de igual pra igual, sem dó nem piedade.

Desisti também naquela hora que sorria espontaneamente e meu pai recriminava, alegando que meus sorrisos e minhas gargalhadas estavam muito. Muito tudo. Mulher tem que ser recatada e pouca. Quis voltar a ser criança naquela hora, sem gênero e sem identidade.

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Desisti de ser mulher no dia em que vi aquele cara sentado ao lado no meu trabalho, muito menos preparado academicamente e vivencialmente que eu, ganhar o dobro do que eu ganho e ainda ir tomar cerveja e almoçar com o patrão e com a diretoria. Se eu fosse eu estaria dando pro chefe ou teria que dar. Quis ser igual àquele ser que sentava ao meu lado.

Desisti de ser mulher quando sentei naquela mesa do bar com minha amiga e dois homens se acharam no direito de sentar, sem pedir licença e, quando pedimos com educação que se retirassem, nos ofenderam com todos os tipos de ofensas, publicáveis e impublicáveis. Queria ser um Alien e abduzi-los a um planeta muito, muito distante e ali deixa-los.

Tambem desisti de ser mulher por causa de algumas outras mulheres. Elas são obrigadas a fingir muitas coisas. Fingem que gostam de varias situações e papéis. Fingem que gostam de ser mães, tem que fingir que gostam de ser esposas e fingem gostar de amamentar. Polemicamente eu não consegui ser mulher e não consigo fingir nada, por isso desisti de ser mulher e algumas vão me odiar e outras vão me amar por ter desistido.

Desisti de ser mulher naquele dia também que o tal príncipe encantado virou um sapo horroroso, agressivo e violento e eu me reduzi a um nada. Quando me livrei dele, desisti de ser mulher e comecei a ser o que eu quisesse ser, para ele e para qualquer homo-sapiens. Virei gigante, poste, carro, tinta, papel, tesoura, qualquer coisa que eu quisesse ser. É, fique aí zangada ou zangado por ler isso. Desde que aquele sangue desceu eu sabia que tinha que desistir de ser mulher. Teria que ser alguma coisa além disso. Aquele sangue já me empoderou, antes da palavra ser da moda. 

Era demais pra mim ser só o que meu passo ali do que seja feminino me mostrava quando eu andava. Religião, fé, família, filhos, trabalho, dinheiro, solidão, relacionamentos, sexo, dor, parto, estrias, celulites, felicidade. Desisti de ser mulher para poder juntar tudo em um pacote e poder ser feliz. Isso sou eu, não precisa ser você. Seja esposa, filha, mãe, freira, o que quiser ser, mas seja. Talvez esse texto não exclua as sábias 'mulheres de Deus', ao contrário. Não precisa mais ser mulher, só seja. Não é porque está na moda, porque eu desisti de ser mulher antes de ser cult  ser empoderada.


Desisti de ser mulher para me perder entre meus sentimentos e silenciosamente envelhecer me sabendo além desses sentimentos, as vezes mal entendidos. Desisti de ser mulher para não morrer de tédio e para não morrer de alegria quando me sentisse homem ou bicho. Desisti de ser mulher para voltar ao que Eva perdeu. Costurar minhas roupas, viver meus coliseus com leões e nunca desistir de mim.

Sinal verde.

Quando estou como passageira no carro não gosto de correr.  Fico com medo de velocidade, aperto o pé como se estivesse freando, num movimento automático que qualquer motorista ao meu lado percebe. Se estou no banco de trás fico sempre imaginando que a velocidade está mil vezes maior do que a que realmente está. Sou avessa a qualquer sinal de adrenalina. Não brinco em roda gigante por medo e acho iluminadas as pessoas que praticam esportes radicais ou conseguem se divertir em brinquedos também radicais nos parques de 'diversão'. Tomo susto com freadas bruscas e as vezes assusto sobremaneira alguns motoristas.

Quando estou na direção, perco a paciência quando me percebo a 20, 30km, coisa normal nas vias principais da cidade onde moro. Comparo mesmo as vezes a uma procissão ou a uma fila de enterro a forma como os motoristas dirigem e excomungo até a ultima geração do ultimo da fila na minha frente, enquanto não consigo passar. Sempre saio em primeiro lugar quando o semáforo muda para o verde. Sinto vontade de sair dali, correr, voar, se fosse possível. E sei bem dirigir. Aprendi sozinha e sou absurdamente atenta, cautelosa, obediente a sinais e normas e condutas no trânsito. Dou setas nas horas certas e nunca uso o celular quando estou com o carro em movimento.

Me vejo praguejando e odiando alguém que não age assim como eu. Ora, essa, como pode não dar setas, não prestar atenção quando o sinal abre e dirigir falando ao celular, atrapalhando a vida dos outros? Minha intolerância passa por evitar horários e vias mais movimentados e, tipo, ser contra liberar porte de armas aos civis. É para rir mesmo. Não poderia jamais andar armada, reconheço, sem a menor sombra de hipocrisia. 

Ainda bem que minha vida não é sempre dentro de um automóvel ou tendo que dirigir um carro, embora saiba que precise bastante, sendo catapultada para dentro de mim: corra!
Também não tenho que andar sempre de passageira, confrontando a mim mesma: não corra.


Eu, coadjuvante na vida. Eu, protagonista na vida. O outro: minha visão. Só sou expectadora das minhas confusões e nas duas situações  minha vida se passa em um mundo paralelo, onde preciso saber exatamente onde está o muro que separa minha emoção da minha razão. Nessa analogia boba, passo de detentora de todo poder sobre mim a uma pobre criatura indefesa. Penso nisso mais por causa do meu bem-estar, o que redundará no bem-estar do outro. Sou veloz e medrosa. Sou forte e fraca. Sou boa e ruim. Sou firme e mole. Sou certa e errada. Sou viva e morta. Sou mestra e aluna. Sou o outro e sou eu. 

Preciso saber parar. Preciso deixar o outro andar. Preciso saber seguir leve. Preciso confiar mais. Preciso aceitar mais. Preciso respirar mais fundo e abstrair mais as situações que me parecem procissões. São parte da teia de Deus que não me deixam correr. Tudo será no tempo certo. A passageira precisa confiar, a motorista precisa desacelerar. A pessoa precisa se acalmar, para sobreviver. Para viver, para andar, para um dia, parar. 

Para estar aqui e escrever. Sem medo. 
E nunca mais parar.




9 de dezembro de 2017

Provérbios 3, para nossos filhos.

1 Meu filho, não se esqueça da minha lei, mas guarde no coração os meus mandamentos,
2 pois eles prolongarão a sua vida por muitos anos e lhe darão prosperidade e paz.
3 Que o amor e a fidelidade jamais o abandonem; prenda-os ao redor do seu pescoço, escreva-os na tábua do seu coração.
4 Então você terá o favor de Deus e dos homens, e boa reputação.
5 Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento;
6 reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas.
7 Não seja sábio aos seus próprios olhos; tema ao Senhor e evite o mal.
8 Isso lhe dará saúde ao corpo e vigor aos ossos.
9 Honre o Senhor com todos os seus recursos e com os primeiros frutos de todas as suas plantações;
10 os seus celeiros ficarão plenamente cheios, e os seus barris transbordarão de vinho.
11 Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor nem se magoe com a sua repreensão,
12 pois o Senhor disciplina a quem ama, assim como o pai faz ao filho de quem deseja o bem.
13 Como é feliz o homem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento,
14 pois a sabedoria é mais proveitosa do que a prata e rende mais do que o ouro.
15 É mais preciosa do que rubis; nada do que você possa desejar se compara a ela.
16 Na mão direita, a sabedoria lhe garante vida longa; na mão esquerda, riquezas e honra.
17 Os caminhos da sabedoria são caminhos agradáveis, e todas as suas veredas são paz.
18 A sabedoria é árvore que dá vida a quem a abraça; quem a ela se apega será abençoado.
19 Por sua sabedoria o Senhor lançou os alicerces da terra, por seu entendimento fixou no lugar os céus;
20 por seu conhecimento as fontes profundas se rompem, e as nuvens gotejam o orvalho.
21 Meu filho, guarde consigo a sensatez e o equilíbrio, nunca os perca de vista;
22 trarão vida a você e serão um enfeite para o seu pescoço.
23 Então você seguirá o seu caminho em segurança, e não tropeçará;
24 quando se deitar, não terá medo, e o seu sono será tranqüilo.
25 Não terá medo da calamidade repentina nem da ruína que atinge os ímpios,
26 pois o Senhor será a sua segurança e o impedirá de cair em armadilha.
27 Quanto lhe for possível, não deixe de fazer o bem a quem dele precisa,
28 Não diga ao seu próximo: "Volte amanhã, e eu lhe darei algo", se pode ajudá-lo hoje.
29 Não planeje o mal contra o seu próximo, que confiantemente mora perto de você.
30 Não acuse alguém sem motivo, se ele não lhe fez nenhum mal.
31 Não tenha inveja de quem é violento nem adote nenhum dos seus procedimentos,
32 pois o Senhor detesta o perverso, mas o justo é seu grande amigo.
33 A maldição do Senhor está sobre a casa dos ímpios, mas ele abençoa o lar dos justos.
34 Ele zomba dos zombadores, mas concede graça aos humildes.
35 A honra é herança dos sábios, mas o Senhor expõe os tolos ao ridículo.

1 de dezembro de 2017

Eu queria.

'Eu queria tanta coisa que não sei nem por onde começar. 
Queria ser bom em Krav Maga. 
Resultado de imagem para krav magaBom mesmo, desses que andam na rua e alguém diz “Olha lá o Neto...ele é uma arma viva. Não mexe com ele”. 
Eu andaria pelas ruas gingando levemente os quadris, como um Bruce Lee Israelense. 
Aí entraria num shopping e teria um piano no atrium. 
Um desses pianos de cauda encerados. 
Eu sentaria e abriria a tampa, displicente. 
Jogaria a franja para trás, num gesto que copiei do Dr. Rey. 
Tocaria um Do, depois um Sol. 
O segurança viria em minha direção porque ele acharia que é proibido qualquer um sentar e tocar o piano. Nem é, mas ele sofre de síndrome de pequenos poderes, então vem em minha direção com olhos de predador. 
Quando está a uma jarda de distância (porque eu saberia quanto é uma jarda), me levanto lentamente e tasco-lhe um golpe de Krav Maga no pescoço. 
Enquanto ele tenta recuperar o fôlego, estrebuchante no chão, eu sento e toco impecavelmente a Sonata n°16 em Do Maior de Mozart, porque tocar piano como um virtuoso é outra coisa que eu queria fazer. 
Quando termino, os clientes de todos os andares do shopping estão debruçados me aplaudindo. 
Olho para trás e o segurança está sentado no chão, me aplaudindo. 
Instantaneamente estarei no YouTube, filmado por diversas testemunhas. 
Agora o shopping é em Singapura. 
Gente de varias nacionalidades vêm falar comigo. 
Respondo a todos em suas línguas natais (eu saberia o plural de todas as palavras compostas), porque ser fluente em 8 línguas é outra coisa que eu queria. 
Agora estou no aeroporto embarcando em
meu jatinho particular, porque ser muito rico seria bom. 
Eu mesmo pilotaria o jatinho. 
Viajaria de um país para outro como quem troca de estação no Metrô. 
Moraria numa vila no sul da França. Ou no norte, sinceramente não sei a diferença. 
Eu saberia se morasse lá. 
Uma vila dessas cheias de plantas. 
O Sting viria na minha vila fazer um pocket show no meu aniversário. 
Na vila estarão meus amigos e alguns moradores de uma cidade próxima cujo nome termina com “sur mer”. 
Se alguém bebesse muito eu não daria um golpe de Krav Maga, mas pediria que a pessoa se retirasse. 
Então sentaria no piano do Sting e faríamos um dueto. 
As pessoas ficariam impressionadas ao perceber como eu seria afinado.
Então, para me surpreender, meus amigos convidariam para fazer o bolo ninguém menos do que o Gordon Ramsey. 
Eu detestaria o bolo e daria um golpe de Krav Maga nele. 
O chefe de polícia da cidade diria para um vereador “...mexeu com o Neto é fogo...é uma arma viva”. 
Tem muito mais coisas que eu queria. 
Mas agora eu só queria poder dormir mais meia hora.'

........................
Adoraria ter escrito esse texto. Era tudo que eu também queria.
Escrito por Mentor Neto.

17 de novembro de 2017

Rachel de Queiroz

❝ (…) eu sentia (e sinto ainda) que não nasci pra coisa pequena. Quero ser gente. Quero falar com os grandes de igual para igual. Quero ter riqueza! A minha casa, o meu gado, as minhas terras largas. A minha cabroeira me garantindo. Viver em estrada aberta e não escondida pelos matos em cabana disfarçada como índio ou quilombola.❞

(Memorial de Maria Moura, Rachel de Queiroz)

16 de novembro de 2017

Oração de hoje e de sempre.

Oh, Deus, ponha em minha vida coisas e pessoas que valham a pena gastar meu tempo e minha energia. Me livre dos pobres de espírito, dos que sugam minha caminhada, puxando pra baixo minha energia. Ao mesmo tempo, obrigada pelas pessoas que me fazem bem, me trazem leveza, luz, paz e ao menos um pouco de esperança ainda no ser humano. 

Amém.

21 de outubro de 2017

Poesia.



Quando eu era adolescente rasguei um caderno de poesias que escrevi. Não tive tempo nem memória para relembrar tantas poesias que soprei, cantei e fiz em melodia até, sozinha, deitada na cama da minha mãe, escrevendo e balançando as pernas, enquanto viajava. Eu e eu. Só eu soube. Só eu li. Cresci e reproduzi. Caíram ontem algumas lágrimas que me foram metafisicamente postas no rosto e que vieram da memória. Rememorei, então, cada página daquele caderno que guardei a sete chaves para que não me reconhecessem ali... coisas da adolescência. Rasguei e queimei umas 40 ou 50 poesias porque eram um terremoto, um maremoto e um talvez assovio, ou uma flauta doce ali. Mas eu não tinha coragem de mostrar a ninguém, já que poesias dizendo eu, o meu eu, a minha alegria em brincar pela primeira vez sozinha de escorregadeira ou que eu havia sentido saudade de alguém me pareciam vergonhosas demais. Mas a poesia voltou ontem na forma de um filho, anos depois disso tudo e vai se eternizar. A vida é assim, tudo que é bom retorna. Ou não sai de dentro de nós.

Belo trabalho do meu filho Daniel e da equipe que o produz enquanto artista que faz poesia também cantada. Uma das coisas lindas que salvaram meu ano.

Enquanto houver poesia.

9 de outubro de 2017

A velha amiga.

Resultado de imagem para rachel de queirozConversávamos sobre saudade. E de repente me apercebi de que não tenho saudade de nada. Isso independente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de tempo mais feliz, menos feliz. Saudade de nada. Nem da infância querida, nem sequer das borboletas azuis, Casimiro.

Nem mesmo de quem morreu. De quem morreu sinto é falta, o prejuízo da perda, a ausência. A vontade da presença, mas não no passado, e sim presença atual.

Saudade será isso? Queria tê-los aqui, agora. Voltar atrás? Acho que não, nem com eles.

A vida é uma coisa que tem de passar, uma obrigação de que é preciso dar conta. Uma dívida que se vai pagando todos os meses, todos os dias. Parece loucura lamentar o tempo em que se devia muito mais.
Queria ter palavras boas, eficientes, para explicar como é isso de não ter saudades; fazer sentir que estou exprimindo um sentimento real, a humilde, a nua verdade. Você insinua a suspeita de que talvez seja isso uma atitude.

Meu Deus, acha-me capaz de atitudes, pensa que eu me rebaixaria a isso? Pois então eu lhe digo que essa capacidade de morrer de saudades, creio que ela só afeta a quem não cresceu direito; feito uma cobra que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodasse nunca à pele nova. Mas nós, como é que vamos ter saudades de um trapo velho que não nos cabe mais?

Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada. Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir.

E não pense que estou a lhe sugerir tragédias. Tirando a média, não tive quinhão por demais pior que o dos outros. Houve muito pedaço duro, mas a vida é assim mesmo, a uns traz os seus golpes mais cedo e a outros mais tarde; no fim, iguala a todos.

Infância sem lágrimas, amada, protegida. Mocidade - mas a mocidade já é de si uma etapa infeliz. Coração inquieto que não sabe o que quer, ou quer demais.

Qual será, nesta vida, o jovem satisfeito? Um jovem pode nos fazer confidências de exaltação, de embriaguez; de felicidade, nunca. Mocidade é a quadra dramática por excelência, o período dos conflitos, dos ajustamentos penosos, dos desajustamentos trágicos. A idade dos suicídios, dos desenganos e, por isso mesmo, dos grandes heroísmos. É o tempo em que a gente quer ser dono do mundo - e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mesmo mundo. A idade em que se descobre a solidão irremediável de todos os viventes. Em que se pesam os valores do mundo por uma balança emocional, com medidas baralhadas; um quilo às vezes vale menos do que um grama; e por essas medida, pode-se descobrir a diferença metafísica que há entre uma arroba de chumbo e uma arroba de plumas.

Não sei mesmo como, entre as inúmeras mentiras do mundo, se consegue manter essa mentira maior de todas: a suposta felicidade dos moços. Por mim, sempre tive pena deles, da sua angústia e do seu desamparo. Enquanto esta idade a que chegamos, você e eu, é o tempo da estabilidade e das batalhas ganhas. Já pouco se exige, já pouco se espera. E mesmo quando se exige muito, só se espera o possível. Se as surpresas são poucas, poucos também os desenganos.

A gente vai se aferrando a hábitos, a pessoas e objetos. Ai, um um dos piores tormentos dos jovens é justamente o desapego das coisas, essa instabilidade do querer, a sede do que é novo, o tédio do possuído.

E depois há o capítulo da morte, sempre presente em todas as idades. Com a diferença de que a morte é a amante dos moços e a companheira dos velhos.

Para os jovens ela é abismo e paixão. Para nós, foi se tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, para indicar que já embarcou.

Rachel de Queiroz

(Crônica publicada no jornal "O Estado de São Paulo" - 13/01/2001)