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26 de março de 2017

Despensa

"Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo."

Millôr Fernandes

23 de março de 2017

O segredo.

Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.
Eu quero morar num lugar frio.

12 de março de 2017

O ENGANO COMO FERRAMENTA.



Calímaco, recém-chegado de Paris. Lucrécia, bela e religiosa mulher. Ele se apaixona por ela. Mas ela é casada com Messer e jamais se envolveria em traição. O apaixonado, então, descobre que o casal era infértil e tem uma ideia.

Calímaco finge-se médico. Afirma ter poção mágica, capaz de fazer Lucrécia engravidar. Como? Ela teria que ter relações sexuais logo após a medicação. Problema: quem dormisse com a jovem neste intervalo morreria.

Pensando em si, Messer concorda com a traição da esposa. Frei Timóteo, após receber valores de Calímaco, convence Lucrécia que para se chegar ao bem (ter filhos) é, por vezes, necessário passar pelo mal (adultério). Ela aceita.

Na noite da relação, após experimentar prazer incomum, Lucrécia descobre a farsa. Calímaco se declara à jovem. E o que ela faz? Continua. O apoio do frei, da mãe e do marido, segundo a jovem, era sinal de providência divina. E ela não recusaria “presente dos céus”.

A obra Mandrágora de Maquiavel, narrada acima, faz crítica à moral e revela como a vontade desestabiliza as regras que temos. Na peça, todos concordam com a traição. O marido, por egoísmo. O frei, por dinheiro. Lucrécia, por prazer.

Mas todos têm justificativa. Messer quer ser pai. Calímaco ama. O frei engana por distribuição de renda. E Lucrécia trai por vontade Divina.

Todos utilizam o engano como ferramenta. É a relativização do certo pela vontade.

No texto de hoje, reflita sobre o uso do engano como ferramenta para você não fazer o certo. É a alimentação desregrada, mantida em razão de aniversário, carnaval, natal etc. É o estudo não iniciado por filhos, juventude, prazeres. É a infidelidade praticada por questões biológicas, sociológicas ou circunstanciais. 

Não se engane. Você apenas usa o engano como ferramenta para continuar no erro sem se sentir mal. É o emagrecimento da consciência, que fica leve pelo engodo. 

E qual o problema? O problema é que a mentira sobre o comportamento não altera o resultado que dele provém. O erro impede as consequências do acerto. Não há vida saudável, progresso profissional, cumplicidade na relação...

Portanto, apesar do costume de usar o engano como ferramenta, não use.

[Texto do Samer Agi]

11 de março de 2017

Agora.



Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser 
Tudo o que quiser
Então eu escuto

Fala... 
Fala...

Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
Fala...
Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá...

Fala...

23 de fevereiro de 2017

Fellini e Carnaval.


O filósofo russo Mikhail Bakhtin, um dos fundadores da semiótica, falecido em 1975 aos 80 anos, formulou o conceito de “carnavalização”, como parte de uma teoria geral do humor.
Para ele, o carnaval representa um conjunto de manifestações da cultura popular medieval, além de um princípio para a compreensão de mundo que, ao ser transportado para obras literárias, chama-se “carnavalização da literatura”. De modo simplificado, ela se manifesta pela inversão das formas consagradas. Quando essa atitude é passada para o cinema, o primeiro cineasta a ser lembrado é Federico Fellini.

O filme de Fellini em que melhor se percebe essa postura de inversão é “Satyricon”, realizado em 1969. Ambientado na Roma no tempo de Nero, o roteiro se inspira no texto do cronista Petrônio, que vivia naquela época e frequentava a corte do imperador.

O protagonista é o jovem Encólpio, que lamenta a perda de seu amante Gitone para o seu amigo Ascilto. A carnavalização felliniana se manifesta na própria forma do filme que se mostrava erótico, extravagante e escandaloso, enquanto a corrente dominante do cinema focalizava as mais sérias questões políticas e existenciais.

Roma de Fellini”, de 1972


“Satyricon de Fellini” se encontra numa caixa junto com outros três títulos do diretor. Numa linha estética semelhante, temos “Roma de Fellini”, de 1972, que pode ser definido como um filme-ensaio sobre a própria memória do cineasta. Por meio de lembranças ficcionadas da sua juventude, e de algumas cenas da cidade no tempo em que o filme foi rodado, Federico reconstrói a Roma da sua imaginação.

Em seu último filme, “A Voz da Lua”, de 1990, o cineasta retorna àquela mesma atmosfera onírica e poética. O filme é armado pelos devaneios de um lunático, interpretado pelo cômico Roberto Benigni que, mais tarde, seria premiado com o Oscar por “A Vida é Bela”.

E finalmente a caixa se completa com o documentário “Ciao Federico”, de 1970, filmado nos bastidores da produção de "Satyricon", com a participação de Giulietta Massina, Capuccine e do próprio Federico. Isso e mais uma hora de entrevistas e depoimentos na coleção da Versátil com o título de “A Arte de Federico Fellini”.

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Fonte: http://programacinemafalado.blogspot.com.br/2017/02/federico-fellini-foi-um-dos-diretores.html

bushed

Eu estou muito cansada. Mesmo, cansada principalmente porque não posso estar cansada. Eu não posso demonstrar cansaço porque preciso estar sempre forte, saudável, atenta, feliz. Mas estou cansada e gostaria de voltar lá atrás e sentar em frente a uma máquina de escrever, sem nenhum celular do lado, apitando, conectando, expectando minhas atenções, sofridamente. Estou cansada de tal forma que eu mesma saboto minha dores. Transformo as dores. Mudo uma ou outra de lugar apenas. Uma hora estou com aquela dor na coluna porque passo muito tempo sentada numa cadeira no trabalho que não foi projetada para mim. O labor que se faz porque gosta não é labor, é prazer, e não causa dor nem cansaço. Aí tomo remédios para a coluna e sinto dores no estômago por causa desses remédios para a coluna. A dor no estômago é acumulativa e, somatoriamente, são respostas às perguntas do meu cansaço. Recortes mentais de fantasmas alegres (e sempre descansados) me cercam, também me acusando, por causa do meu cansaço. Há que se lembrar de não se confundir cansaço com infelicidade. Nem com solidão. Nem com um monte de coisas pessimistas que as pessoas hoje se regozijam em confundir. É cansaço. Cansaço de pessoas falando demais, escrevendo bobagens demais, opinando demais sobre coisas que não sabem, de gente que não sabe dirigir, dirigindo - carros - e também suas próprias vidas. É de ver que estou num Big Brother sensacionalista, onde o diretor já montou todo o enredo e que, quem sabe, meu cansaço também já cansou todo o possível e provável expectador. E estou cansada de ser estrangeira numa terra sem leis. E cansada de afundar em discussões com quem também se acha estrangeiro mas é terreno demais. Camus se arrependeria das coisas que disse e se cansaria também. Mas não posso estar cansada. Nem sei porque estou escrevendo aqui nesse blog, que já foi palco de tantos textos bons e ruins e de tantos desabafos (Cansados, prematuros ou não). Fiquei capitaneando por muito tempo os olhos ao meu redor e percebi que a internet é um mar traiçoeiro, cheio de piratas mais traiçoeiros ainda, prontos para lhe atacar. Desisti de expor meus calafrios verbais, já que a internet pueril que eu expunha antes se transformou numa velha doente febril sempre acima de 40 graus. Se antes poucos e selecionados olhos 'me' liam aqui, agora TODOS os olhos me leem e isso é assustador. Crise de pânico virtual. Sociopatia virtual. Tudo sai do real e salta para a tela (e vice-versa), tensionada pelo nível do meu cansaço. A vontade do bucólico é só cansaço. Cansaço do que se transformou a humanidade. Humanidade violenta, destruidora, que varre a sujeira (e os cansaços) todos para debaixo do tapete e não aceita aceitar seus cansaços. E serei acusada por causa do meu cansaço, já espero isso. "Cansada de que??". De mim, pronto. Chega, pára de apontar o dedo e se preocupe só com você. Aí estou sendo egoísta, indelicada e vou morrer velha e só, como já ouvi de alguém que hoje sei que não nasceu para absolutamente nada nesse mundo, nem para morrer velho e só. Estou cansada até de lembrar. Meus respeitos aos que não se cansam, já que não vieram ao mundo para nada, nem para, inquietantemente, estarem cansados. Uns inúteis que nem se cansam. E eu estou cansada aqui, sem noção de quando esse cansaço vai passar, apenas cansada. Dormir não passa meu cansaço, já que terei que acordar e eu só queria ficar dormindo por muito e muito tempo e acordar em outra época, para tentar resgatar as sensações de como é estar descansada. Descansada, sem problemas, sem preocupações, sem desgastes inúteis. Descansada, sem pensamentos. Fim do texto, cansei.

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http://dramarcellabrasil.com.br/cansaco-cronico-o-mal-do-mundo-atual/

4 de dezembro de 2016

Gullar.

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?



Ferreira Gullar
(RIP)


26 de novembro de 2016

I love.

Diveríssimo.

"... A tristeza, depressão 
O espaguete virou Miojo pronto 
A paquera virou pegação 
A gafieira virou dança de salão
O que era praça virou shopping 
A areia virou ringue 
A caneta virou teclado 
O long play virou CD
A fita de vídeo é DVD 
O CD já é MP3 
É um filho onde éramos seis 
O álbum de fotos agora é mostrado por email
O namoro agora é virtual 
A cantada virou torpedo 
E do "não" não se tem medo 
O break virou street
O samba, pagode 
O carnaval de rua virou Sapucaí 
O folclore brasileiro, halloween 
O piano agora é teclado, também
O forró de sanfona ficou eletrônico 
Fortificante não é mais Biotônico 
Bicicleta virou Bis 
Polícia e ladrão virou counter strike
Folhetins são novelas de TV 
Fauna e flora a desaparecer 
Lobato virou Paulo Coelho 
Caetano virou um chato
Chico sumiu da FM e TV 
Baby se converteu 
RPM desapareceu 
Elis ressuscitou em Maria Rita? 
Gal virou fênix 
Raul e Renato, 
Cássia e Cazuza, 
Lennon e Elvis, 
Todos anjos 
Agora só tocam lira...
A AIDS virou gripe 
A bala antes encontrada agora é perdida 
A violência está coisa maldita!
A maconha é calmante 
O professor é agora o facilitador 
As lições já não importam mais 
A guerra superou a paz 
E a sociedade ficou incapaz...
... De tudo.
Inclusive de notar essas diferenças."

Luis Fernando Veríssimo

2 de novembro de 2016

Egotrips.

Ninguém que é inteligente vive falando que é inteligente. Quem é bonito não precisa dizer que é lindo. Quem sabe escrever não vive dizendo que sabe escrever. Quem é bom não vive dizendo que é bom. Quem é humilde não vive dizendo que é humilde. Quem é trabalhador não vive dizendo que é trabalhador. Quem é altruísta geralmente nem precisa dizer que é altruísta. Quem é feliz não vive dizendo que é feliz, apenas 'vive vivendo' sua felicidade. 

Fica a dica pros egotrips em alta.

8 de outubro de 2016

Cama de solteiro.

“Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é acionado, nem chega com hora marcada. Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável. Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”: duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável. Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto. Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.”

(Dizem que é de John Lennon)

19 de setembro de 2016

Relógio velho.

Sim, desisti de você. Talvez devesse levar em conta as suas mudanças. Das mudanças superficiais às mais profundas, reconheci as duas, já que você me interessava, não só por um sentimento natural de amizade que nutro quando quero, mas por uma certa obrigação que me imputava por nos conhecermos ha 'mais de 15 anos'. Sabe que importância dou a essa coisa de tempo, de cronologia hoje em dia? Nenhuma.

Parto do pressuposto de que a maioria das pessoas mudam. Digo maioria porque sim, existe uma minoria que se mantem estagnada, linear, ainda pubescendo e/ou adolescendo mesmo aos 30, 40 anos. Mas você não faz parte dessa minoria, disso fique certo. Você faz parte de uma maioria que muda e você também mudou. Mudou tanto que nos perdemos nessas mudanças e não adianta mais insistir nessa tecla idiota de 'tempo de amizade'.

Nos perdemos nas idéias, a intimidade e terceiros nos estragaram e, diferente do que a maioria diz, uma amizade antiga também pode acabar. Acaba mesmo, já que o entorno impõe erosões emocionais e os pedregulhos se espalham, doendo demais os dois pés. As reações ficam diferentes, as transformações emocionais, causadas por perdas, frustrações e dores são sentidas de formas diferentes e foi assim com os dois indivíduos: você e eu. Em alguns momentos até te amei muito, profundamente, independente do seu amor. Percebi que isso também estava errado.

Fui percebendo esconderijos em suas ações. Fui percebendo rejeições familiares por conta daquilo que você mesmo sempre disse ser seu maior defeito e eu hesitava em explicita-los, para preservar sempre uma amizade. Não, eu sempre aceitei ao outro como ele é, mas, de repente tudo que eu aceitava em você estava sendo jogado apenas conta mim, porque o restante do seu nicho quase todo já havia se afastado. Minhas tentativas de aceitar sua negatividade, prostração se esgotaram. Percebi que, ao longo dos anos, não houve mudança positiva em alguns dos pontos que eu, ha anos atrás, admirava sobremaneira.


Mudou para pior e isso é desolador, não há regresso. Ao invés de progresso, o que julgo natural, desejava sempre um regresso, ao sentimento limpo e naturalmente especial que tinha. Ensimesmadamente bate no peito que não se preocupa com o alheio e percebi que isso me inclui. E eu também mudei, de certa forma, já que não faz a menor diferença se você vai sofrer. Estou melhor, sabendo que sim, você pode não sofrer. Estou apenas impressionada em como eu estou melhor sem você por perto, sem você no meu espaço. 

E não digo isso como vingança ou de forma agressiva, digo isso de forma bem natural, já que minha bagagem de atenção, carinho, amor, e de outras coisas bem significantes ficaram mais cheias desde que me afastei e desisti de você. Aí, quem fica, ganha mais. O que aprendi é que jamais vou permitir que de novo alguém que me conheça profundamente mine minhas emoções, estrague minha auto estima, cerceie meus dons, queira apagar meu brilho, minta para mim, e, com desculpas de sinceridades, não acredite em mim e me entregue armas para que eu cometa suicídios emocionais. 

Desisti depois de tantos anos e ainda acredito que agora você vá sim estagnar agora. De certo que os poucos que sobrarem ao seu redor, talvez por obrigação espiritual/familiar, tenham mesmo que lidar com você, sabendo que suas virtudes já existiram ou por altruísmo. Eu vou fazer parte do passado e ainda bem que não terei mais notícias suas, simplesmente porque não me interessam mais. Friamente digo que isso me faz muito bem. Repito, os que dizem por aí que amizades de 15, 20, 30 anos não acabam, estão redondamente enganados. Podem acabar, embora também possam se modificar para bem melhor se houver a sabedoria de entender as mudanças de cada uma das partes. O que você se fechou em entender e evitar mudar para um ser por vezes execrável.

Tenho outro amigo que vai me mostrar o que preciso ser de melhor e eu a ele. Siga lá seu caminho que escolheu de sombras, paralisação e solidão que seguirei mudando, para melhor. Desisti de você, mas jamais desistirei de mim, já que o tempo é meu aliado e não meu velho amigo. Todos os dias nossa amizade se renova e é isso que quero para minha vida.