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4 de dezembro de 2016

Gullar.

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?



Ferreira Gullar
(RIP)


26 de novembro de 2016

I love.

Diveríssimo.

"... A tristeza, depressão 
O espaguete virou Miojo pronto 
A paquera virou pegação 
A gafieira virou dança de salão
O que era praça virou shopping 
A areia virou ringue 
A caneta virou teclado 
O long play virou CD
A fita de vídeo é DVD 
O CD já é MP3 
É um filho onde éramos seis 
O álbum de fotos agora é mostrado por email
O namoro agora é virtual 
A cantada virou torpedo 
E do "não" não se tem medo 
O break virou street
O samba, pagode 
O carnaval de rua virou Sapucaí 
O folclore brasileiro, halloween 
O piano agora é teclado, também
O forró de sanfona ficou eletrônico 
Fortificante não é mais Biotônico 
Bicicleta virou Bis 
Polícia e ladrão virou counter strike
Folhetins são novelas de TV 
Fauna e flora a desaparecer 
Lobato virou Paulo Coelho 
Caetano virou um chato
Chico sumiu da FM e TV 
Baby se converteu 
RPM desapareceu 
Elis ressuscitou em Maria Rita? 
Gal virou fênix 
Raul e Renato, 
Cássia e Cazuza, 
Lennon e Elvis, 
Todos anjos 
Agora só tocam lira...
A AIDS virou gripe 
A bala antes encontrada agora é perdida 
A violência está coisa maldita!
A maconha é calmante 
O professor é agora o facilitador 
As lições já não importam mais 
A guerra superou a paz 
E a sociedade ficou incapaz...
... De tudo.
Inclusive de notar essas diferenças."

Luis Fernando Veríssimo

2 de novembro de 2016

Egotrips.

Ninguém que é inteligente vive falando que é inteligente. Quem é bonito não precisa dizer que é lindo. Quem sabe escrever não vive dizendo que sabe escrever. Quem é bom não vive dizendo que é bom. Quem é humilde não vive dizendo que é humilde. Quem é trabalhador não vive dizendo que é trabalhador. Quem é altruísta geralmente nem precisa dizer que é altruísta. Quem é feliz não vive dizendo que é feliz, apenas 'vive vivendo' sua felicidade. 

Fica a dica pros egotrips em alta.

8 de outubro de 2016

Cama de solteiro.

“Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é acionado, nem chega com hora marcada. Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável. Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”: duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável. Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto. Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.”

(Dizem que é de John Lennon)

19 de setembro de 2016

Relógio velho.

Sim, desisti de você. Talvez devesse levar em conta as suas mudanças. Das mudanças superficiais às mais profundas, reconheci as duas, já que você me interessava, não só por um sentimento natural de amizade que nutro quando quero, mas por uma certa obrigação que me imputava por nos conhecermos ha 'mais de 15 anos'. Sabe que importância dou a essa coisa de tempo, de cronologia hoje em dia? Nenhuma.

Parto do pressuposto de que a maioria das pessoas mudam. Digo maioria porque sim, existe uma minoria que se mantem estagnada, linear, ainda pubescendo e/ou adolescendo mesmo aos 30, 40 anos. Mas você não faz parte dessa minoria, disso fique certo. Você faz parte de uma maioria que muda e você também mudou. Mudou tanto que nos perdemos nessas mudanças e não adianta mais insistir nessa tecla idiota de 'tempo de amizade'.

Nos perdemos nas idéias, a intimidade e terceiros nos estragaram e, diferente do que a maioria diz, uma amizade antiga também pode acabar. Acaba mesmo, já que o entorno impõe erosões emocionais e os pedregulhos se espalham, doendo demais os dois pés. As reações ficam diferentes, as transformações emocionais, causadas por perdas, frustrações e dores são sentidas de formas diferentes e foi assim com os dois indivíduos: você e eu. Em alguns momentos até te amei muito, profundamente, independente do seu amor. Percebi que isso também estava errado.

Fui percebendo esconderijos em suas ações. Fui percebendo rejeições familiares por conta daquilo que você mesmo sempre disse ser seu maior defeito e eu hesitava em explicita-los, para preservar sempre uma amizade. Não, eu sempre aceitei ao outro como ele é, mas, de repente tudo que eu aceitava em você estava sendo jogado apenas conta mim, porque o restante do seu nicho quase todo já havia se afastado. Minhas tentativas de aceitar sua negatividade, prostração se esgotaram. Percebi que, ao longo dos anos, não houve mudança positiva em alguns dos pontos que eu, ha anos atrás, admirava sobremaneira.


Mudou para pior e isso é desolador, não há regresso. Ao invés de progresso, o que julgo natural, desejava sempre um regresso, ao sentimento limpo e naturalmente especial que tinha. Ensimesmadamente bate no peito que não se preocupa com o alheio e percebi que isso me inclui. E eu também mudei, de certa forma, já que não faz a menor diferença se você vai sofrer. Estou melhor, sabendo que sim, você pode não sofrer. Estou apenas impressionada em como eu estou melhor sem você por perto, sem você no meu espaço. 

E não digo isso como vingança ou de forma agressiva, digo isso de forma bem natural, já que minha bagagem de atenção, carinho, amor, e de outras coisas bem significantes ficaram mais cheias desde que me afastei e desisti de você. Aí, quem fica, ganha mais. O que aprendi é que jamais vou permitir que de novo alguém que me conheça profundamente mine minhas emoções, estrague minha auto estima, cerceie meus dons, queira apagar meu brilho, minta para mim, e, com desculpas de sinceridades, não acredite em mim e me entregue armas para que eu cometa suicídios emocionais. 

Desisti depois de tantos anos e ainda acredito que agora você vá sim estagnar agora. De certo que os poucos que sobrarem ao seu redor, talvez por obrigação espiritual/familiar, tenham mesmo que lidar com você, sabendo que suas virtudes já existiram ou por altruísmo. Eu vou fazer parte do passado e ainda bem que não terei mais notícias suas, simplesmente porque não me interessam mais. Friamente digo que isso me faz muito bem. Repito, os que dizem por aí que amizades de 15, 20, 30 anos não acabam, estão redondamente enganados. Podem acabar, embora também possam se modificar para bem melhor se houver a sabedoria de entender as mudanças de cada uma das partes. O que você se fechou em entender e evitar mudar para um ser por vezes execrável.

Tenho outro amigo que vai me mostrar o que preciso ser de melhor e eu a ele. Siga lá seu caminho que escolheu de sombras, paralisação e solidão que seguirei mudando, para melhor. Desisti de você, mas jamais desistirei de mim, já que o tempo é meu aliado e não meu velho amigo. Todos os dias nossa amizade se renova e é isso que quero para minha vida.

16 de setembro de 2016

Lá.


Eu sou assim hoje, mas é que eu mudei. Refiz caminhos várias vezes até mudar. E quem sabe amanhã não vou refazer de novo o mesmo caminho, agora mudada, melhor? Bater no peito e dizer que é assim mesmo e vai morrer assim? 

Precisa mudar.

14 de setembro de 2016

A Lei do Triunfo.

“Creio em mim mesmo. Creio nos que trabalham comigo. Creio no chefe. Creio nos meus amigos. Creio em minha família. Creio que Deus me emprestará tudo o que eu necessito para triunfar, contanto que eu me esforce para alcançá-lo por meios lícitos e honestos. Creio nas orações e nunca fecharei os meus olhos para dormir sem pedir antes a Divina orientação, a fim de ser paciente com os outros e tolerante com os que não acreditam como eu acredito. Creio que o triunfo é o resultado do esforço inteligente e não depende de sorte, de magia, de amigos duvidosos, de companheiros ou do meu chefe. Creio que tirarei da vida exatamente o que nela colocar, e, assim sendo, serei cauteloso quanto a tratar os outros, como quero que eles sejam comigo. Não caluniarei aqueles de quem não gosto. Não diminuirei o meu trabalho por ver que outros o fazem. Prestarei o melhor serviço de que for capaz, porque jurei a mim mesmo triunfar na vida e sei que o triunfo é sempre o resultado do esforço consciente e eficaz. Finalmente, perdoarei os que me ofendem, porque compreendo que algumas vezes ofendo os outros e necessito do seu perdão. 


Napoleon Hill - “A Lei do Triunfo”

31 de agosto de 2016

2016

'Ah! Mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado.
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã. 
Eu acho tudo isso um saco. '

Raul

24 de agosto de 2016

...

Quintana.

"Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...
E só ganhar, toda a vida, 
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas..."

Mario Quintana

7 de agosto de 2016

Nó na garganta.


Andei o tempo todo com o nó na garganta. Sinto na pele a dor e o sofrimento de uma mãe e de um pai que representam o sentimento de inúmeros pais e mães, País afora. Ali, com o nó na garganta, vi os jovens que amam e querem amar sem preconceitos, sem discriminação. De cabelo cor-de-rosa, com seus piercings, com suas tatuagens, os que não curtem tatuagens nem piercings, mas gostam dos que gostam de tatuagens e piercings. O meu nó na garganta é também de vergonha. Vergonha de ver a contradição em que o ser humano se tornou. A cada passo que dou, sinto como se o chão se abrisse e eu me visse ali, no lugar de cada um que anda, juntos, por apenas um outro ser humano, ao qual também me coloco no lugar.

O chão se abre e eu vejo meus próprios defeitos, minha própria história de vida e me sinto envergonhada por tantas vezes julgar precipitadamente aquela menina linda de cabelo rosa, sem saber sua história, seus dissabores, suas alegrias, suas intenções. A minha auto dissecação também passa por aquela criança que fui, feliz, alegre, cercada de cuidado e amor, assim como foi a do ser humano objeto da minha manifestação ali. E se fosse eu sendo escrachada, maltratada, espancada? 

Minha auto comiseração passa pelo ponto de que eu sou todos ali. Meu filho também. Preciso respeitar mais as pessoas. Preciso parar de julgar mais as pessoas e, por isso, meu nó na garganta explode. Minha vergonha em julgar tantas vezes me coloca no lugar daquele espancador e, até chegar lá, preciso baixar minhas guardas e me perdoar por tantas vezes estar no lugar dele, mesmo não chegando às vias de fato, ferindo fisicamente e maltratando. Cada passo que dou mostra um filme. Um filme com vários personagens que eu maltratei e coloquei na UTI e, quem sabe, não cheguei a matar, mas feri.

É certo que existe o lado bom e o lado ruim de tudo que nos cerca. Coisa boa e coisa ruim. Comida boa e comida ruim. Veneno e remédio. Gente boa e gente ruim. Mas, se eu não conhecer, como vou saber? A comida ruim pro outro pode ser a delícia gastronômica dos deuses para mim. E eu preciso que respeite aquilo que eu gosto, se isso não lhe fere. Basta não comer do que eu como e respeite minha comida. 

Já fui maltratada algumas vezes e me senti sozinha. Ver aquelas pessoas ali, juntas, em prol de uma só, me emociona profundamente. Cada passo que eu dou coloca um espelho à minha frente. E choro porque são jovens amorosos, com os corações cheios de esperança, futuros, sonhos, onde o RESPEITO é a principal meta. Ouvi relatos vindos de jovens que não estão dentro dos estereótipos acentuadores de preconceito, mas mesmo assim já foram agredidos, por uma cor de pele ou por uma roupa que vestiam. O que me dá o direito de rechaçar alguém, o outro, por tais motivos? Quem sou eu na fila do pão para me colocar numa situação melhor ou pior do que o outro, ao ponto de bater, maltratar?

Repito, entendo que existem pessoas ruins, provocadoras, mas, o meu livre arbítrio, meu direito de ir e vir também me dá a liberdade de simplesmente optar em ter ou não essa pessoa caminhando comigo. Mas essa experiência tem que ser pessoal e será minha. Não posso obrigar o outro a ter a mesma postura. Ali, caminhando com várias pessoas em prol de uma só vida, tínhamos uma certeza em comum, a de que aquele menino foi injustiçado, maltratado por uma pessoa que precisa pagar por não respeita-lo e ir além do que um ser humano tem que ter em mente: nada justifica a violência, principalmente a embasada em abuso de poder. Falta  RESPEITO entre as pessoas e isso esbarra em limites.

Todos concordavam ali que o amor é a base de tudo. Me sinto sendo transformada a cada passo que dou. Cada jovem ali me deu uma sacudida, sem saber que estava fazendo isso. Preciso respeitar mais as pessoas. Preciso amar o rico, o pobre. Preciso aceitar que alguém é diferente de mim, que alguém ama diferente de mim, que as pessoas são diferentes. Isso pode parecer lugar comum, mas, infelizmente, os jovens estão sem esperança, perdidos, sozinhos, e isso me faz sentir muito, lamentar por um mundo que EU ajudei a criar, onde adultos ferem uns aos outros e a paz anda cada vez mais perdida. E me emociono em ver que ainda há esperança, por causa desses jovens ali, daquelas pessoas ali, caminhando comigo.

Aqueles jovens e aquelas pessoas ali estavam lutando e protestando por JUSTIÇA, por paz, e, muitas vieram agradecer por estarmos caminhando ali, juntos, como se eles estivessem sendo agraciados, sentindo-se acalentados, protegidos. Ao passo que, depois que entrei nessa empreitada de acompanhar esse caso, aprendi e fui muito, mas muito mais agraciada por eles do que eles por mim. 

Meus filhos, jovens como eu, mas ainda buscando muito mais certezas do que eu, precisam viver num mundo melhor e eu tinha muito pouca ideia de que estavam cercados de tanto amor. Poderiam ser eles ali no lugar do rapaz agredido e, por eu ser humana, num sentimento egoico, carregava mais ainda o tal nó na garganta.



5 de agosto de 2016

RIP


Vander Lee, você se foi daqui cedo demais..:-(

Alma Nua

Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima

Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta