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13 de agosto de 2006

Hoje só?..Pai, sempre.

Na minha infância, ele exercia um papel de pai-líder-chefe-da-casa, que ninguém faria igual.
Se já li muito, foi porque ele me apresentou a sua enorme biblioteca desde cedo e, todas assinaturas das revistas tradicionais e em quadrinhos nós tínhamos lá em casa.
Sem ler ainda, ficava vendo as figuras, enquanto ele ou meus irmãos liam prá mim. De vez em quando levava a gente ao cinema, e, mesmo eu dormindo sempre no meio do filme, só lembro de entrar no cinema, passar pra cima do colo fofo dele e já acordar, ou no carro, ou, em casa já.
No São João, ele chegava com caixas e caixas de fogos de artifício pra gente. Eu, como caçula, ele não deixava eu soltar os fogos que estouravam com fogo, eu só podia os “traques”..mas mesmo assim, aquilo pra mim era o céu. Sob protestos da minha avó, mãe dele, que morava com a gente, que crente beata, dizia que ele "queimava dinheiro", na maior ranzinzisse..e ele nem ligava, lá estava ele todos os anos fazendo a mesma coisa.
Meu avô, pai da minha mãe sempre foi bem rico, fazendeiro, fui criada indo prá fazenda nas férias e, lá ia meu pai, e eu achava muito engraçado ele trocar os livros e a esponja e o giz, pelos chapéus, anzol, bota..ver painho montado num cavalo, tentando acompanhar os vaqueiros até no linguajar, falando errado, era o que havia de mais hilário. Minha mãe criticava muito, porque parece que ela queria que ele fosse o herdeiro da metade, já que ela era mulher e filha única, mas painho não era daquilo..
A gente tinha uma brincadeira quando pequenos de pendurar no “muque” (músculo do braço forte) dele. Era..eu como a menorzinha sempre levava a melhor, porque podia me balançar mais.
Meu irmão sempre apanhava por minha causa, porque eu era muito dengosa e assim que avistava painho chegar do trabalho, corria pra contar as peripécias ocorridas durante o dia, e ele já passava com o “cinturão” pra dar o corretivo. Depois eu apanhava do meu irmão, mas do meu pai, não lembro de nenhuma sovinha. Eu era uma santa...
É um exímio pescador. Não era da roça, fazendeiro mas sempre adorou pescar. E eu ficava esperando, embora ele não saiba disso até hoje, ele chegar depois das “tarrafadas”, lá mesmo na roça do meu avô, aquele monte de peixe, pra sentar com minha mãe e todo mundo da roça, pra “tratar” as Traíras, Tilápias. Nossa, como eu amava fazer aquilo.
Enquanto as outras crianças tinham nojo e não tinham paciência, eu amava, e ele ficava me ajudando, ensinando. Depois passou a pescar de arpão, pesca de mergulho, o peixe chamado Tucunaré, e trazia muitos, mergulha muito até hoje, sem equipamento nem nada, só no fôlego. Eu parei de tratar os peixes, e só comia com ele.
Aliás, ele sempre fala até hoje que, embora fôssemos evangélicos lá em casa, só não ele, que se afastou da igreja quando eu era pequenininha, após ter sido presbítero, etc, eu era a que “acompanhava” ele na cerveja, porque era ele botar a cerveja no copo, geralmente no domingo, lá estava eu pedindo uma “gotinha”.
Era chato no seu conservadorismo. Nunca o vi na cozinha, até antes de minha mãe morrer, porque quando ela morreu e se casou de novo, cheguei em sua casa e lá estava ele tratando carne. Com minha mãe as refeições tinham que ser exatamente nos horários certos, mil tipos de carnes, a comida sempre quente, tudo impecável. Devia ser culpa dela isso..
Quando casamos, fomos crescendo, meu pai chorava em cada casamento, em cada nascimento de netos. Como meu primeiro filho foi também seu primeiro neto, cheguei uma vez no tapete da sala e, minha mãe estava de boca aberta, olhando, porque meu pai estava de quatro, brincando de cavalinho com meu filho nas costas..ela largou logo: “olhaaaa..quase não fazia isso com os filhos”. Eu nem achava aquilo. Ele deixava eu me pendurar no braço dele, me levava ao cinema e me dava livros.
A ultima vez que pude refletir sobre seu papel em minha vida, não sei, mas senti como se aquele momento não fosse mais se repetir, não daquele jeito...
Estávamos na praia, tomando cerveja gelada, comendo acarajé, caranguejo, vendo as pessoas.
Ele, numa felicidade ímpar, por estar fazendo uma das coisas que mais gosta, e ao lado dos filhos.
Ninguém percebeu, mas eu comecei a reparar nele e me veio lágrimas aos olhos.
Fiquei emocionada, por pensar que quando a pessoa está quente, pulsando, a gente não percebe a falta que faz quando ela partir.
Meu pai já tem mais de 70 anos. Minha mãe já morreu há 14 anos atrás e, nos sabemos hoje pai e filha. E isso basta. Defeitos e qualidades, como botar isso numa balança que não existe?
A balança é o sentimento de gratidão que tenho. Que, embora embotado esse sentimento quando na infância, hoje, mãe, estupidamente mais cheia de defeitos que meu pai, vejo que ele fez tudo e foi tudo que eu precisava. Não, não tinha que ser diferente. E é até hoje. Nos meus perrengues me ajuda e só sua presença parece que prá mim já é um alento.
Conservador, tradicional, aristocrata, filósofo, sempre da direita política, admirador incondicional de ACM, machista..defeitos, qualidades, que eu consegui enxergar depois que cresci. Mas, prá que eu quero evidenciá-los se eu sou, mesmo sendo oposto, às vezes, uma versão dele em alguns detalhes?
Embora eu tenha a bsoluta consciência dos seus defeitos e falhas, essa consciência nunca deixa que haja evidência destes. Eu esqueci os defeitos e falhas do meu pai. Joguei no mar do esquecimento e hoje meu amor por ele corre livre. Queria ter uma fórmula mágica prá conservá-lo vivinho eternamente. Mas não tenho.
Digo a ele hoje sempre que o amo muito. O que não tive tempo de dizer prá minha mãe, que já partiu. Não quero perder tempo mesmo, porque eu preciso ainda dele, das suas rugas, dos seus ais e risos.
Amor. Aí eu defino: incondicional, por você, meu pai.

“[...]Pai, eu não faço questão de ser tudo, só não quero e não vou ficar mudo...Prá falar de amor pra você.
Pai, senta aqui que o jantar tá na mesa, fala um pouco tua voz tá tão presa, n
os ensine esse jogo da vida, onde a vida só paga pra ver.
Pai, me perdoa essa insegurança, é que eu não sou mais aquela criança
Que um dia morrendo de medo, nos teus braços você fez segredo, nos teus passos você foi mais eu.. Pai, eu cresci e não houve outro jeito, quero só recostar no teu peito.
Pra pedir pra você ir lá em casa e brincar de vovô com meu filho, no tapete da sala de estar.
Pai, você foi meu herói meu bandido, hoje é mais muito mais que um amigo, n
em você nem ninguém tá sozinho, você faz parte desse caminho.
Que hoje eu sigo em paz.”

2 comentários:

Sua Amiga Cindy disse...

Nossa... chorei.........

David Jr. disse...

Helena, ja li bastante coisas aqui no seu blog. Coisas que eu curti, outras nem tanto; Coisas que eu concordei, outras que discordei; coisas que feriram principios meus, outras que me fizeram rir. Mas ouve dois momentos onde vc conseguiu me surpreender. E eu quero aplaudir de pe a maneira como vc passou o seu sentimento. Sei que a unica explicacao eh essa: 'O AMOR'. Os dois momentos foram exatamente quando vc falou sobre a sua mae e sobre o seu pai. Parabens!!