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27 de agosto de 2006

O Libertino?

..."Trata-se de um filme para quem gosta de teatro. Baseado numa peça, tem longos diálogos, densos e intrincados, que necessita atenção e concentração para acompanhar – ou seja, 90% do público do cinema hoje não vai dar conta.
Há frases filosóficas, embates verbais e tensas discussões sobre fazer teatro e sua função social. Afinal, Shakespeare já havia morrido, sua herança colossal pesava nos novos autores e a Inglaterra, falida e prestes a uma guerra com a França, tentava recuperar o prestígio político e cultural com o retorno de Carlos II ao trono, a chamada Restauração Inglesa.
Conta a história do conde de Rochester, autor lascivo e lúbrico responsável por algumas peças escandalosas da segunda metade do século 17 – Sodoma, uma das peças apresentadas no filme, foi escrita em 1647. É um autor citado pelo crítico Samuel Johnson e por escritores célebres, como Voltaire e Graham Greene. Charlotte Brönte nomeou um de seus personagens do romance Jane Eyre numa referência a ele. Sua obra está esquecida, não logrou o êxito do francês Marquês de Sade (os franceses, sempre eles...)."

Forte, denso, mas, pecou pela falta de profundidade no que o próprio filme se propôs. A bissexualidade do Conde (meu maravilhoso sempre Johnny Depp), que não foi tão enfatizada como sua fala no prólogo, e etc. Ainda assim, há momentos em que O Libertino parece tentado a justificar as ações de seu protagonista: além dessa cena introdutória (que fará uma rima narrativa com o desfecho do longa), que busca mostrar um John Wilmot mais razoável, ainda que ciente de sua própria canalhice (se ele nos alerta contra si mesmo, não pode ser tão mau!), o filme investe no intenso amor do escritor pela esposa como forma de torná-lo mais vulnerável e menos frio – e o fato é que o interesse romântico do sujeito jamais soa realmente convincente. Felizmente, por mais que o roteiro busque aproximar o espectador de seu personagem-título, mostrando-o apaixonado, retratando sua busca pela redenção ou mesmo confessando seus pecados, o brilhante Johnny Depp simplesmente não permite que isto aconteça.
Sempre que o filme cria uma situação que possa inspirar nossa simpatia por Wilmot, Depp carrega no cinismo, como para nos lembrar de que não devemos confiar no sujeito – o que engrandece a produção.
Destaco uma cena do diálogo em que o Conde, já doente, sifilítico, tem com sua esposa, que o ama até o final. Me emocionou.
Aliás, as frases ditas deveriam congelar na tela para que nunca mais sejam esquecidas, ou, sempre lembradas:
- - "Eu te condeno a ser você pelo resto dos seus dias..."

(Quando o Rei Charles II dirige estas palavras ao poeta e dramaturgo John Wilmot, em certo momento de O Libertino, sua condenação traz o peso do reconhecimento de que aquele é um homem cuja vida tornou-se um fardo: consumido pela doença e odiado por muitos, Wilmot parece mais abatido por permanecer vivo do que ficaria caso fosse sentenciado à guilhotina.)

Em certo instante, por exemplo, sua esposa manifesta sua frustração em um pequeno monólogo escrito com grande elegância:

- - "John, eu poderia suportar nosso casamento mais facilmente caso não houvesse fingimento. Caso eu fosse uma mera dona-de-casa e um passaporte para que você tivesse acesso à linhagem nobre. Mas quando você está longe, escreve tão convincentemente sobre o quanto me ama e... não acho que queira me torturar, mas é uma tortura ser informada à distância sobre sua paixão e, então, ser tratada com tamanha frieza pessoalmente."

É filme "alternativo", ou seja, a maioria mesmo não vai gostar, mas eu pretendo ver de novo. No escore: nota 9, por ter me feito refletir mais ainda sobre o espírito humano e, a exemplo da cena em que a atriz cobre o rosto ao ir para a cama com Wilmot, sempre, com as mãos, numa demonstraçao de fragilidade e vergonha talvez. Ficou meio confuso pra mim.
Quando tiver o DVD, vou ver se compro. Vale a pena ter.

2 comentários:

Sandra White disse...

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sergio m. disse...

O filme consegue nos transportar para um lado que o cinema, hoje, raramente consegue: um lugar aonde a reflexão da sordidez + paixão + ocaso estão. JD está perfeito num papel em que qualquer cagão seria caricato ao extremo...
(e que milagre é esse de esse cineminha exibir esse filme?)