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27 de fevereiro de 2008

UÓXTO, VÁLTE, FRA-FRU E ETC..

"Minha cozinheira é uma pessoa maravilhosa, uma negra pura, africana até a alma, com um sorriso mais branco que o branco dos dentes das moças dos anúncios de pasta de dentes.
Uma pessoa por quem eu tenho um certo zelo e até cuidado.
Ela sofreu há cerca de oito meses a pior das dores que um ser humano pode sofrer: perdeu, num acidente de carro, sua filha única, de vinte anos e que já cursava Medicina, no Fundão e era considerada a melhor aluna de todo o Fundão – era o futuro da minha doce cozinheira.
Ele deve ter perdido uns trinta quilos, mas foi de uma competência admirável, na quase impossível missão de encarar esta dor de matar.
O problema dela é o vocabulário porque ela fala errado, como oitenta por cento da nossa população; eu não sei se sabem que, na maioria dos casos, quem ensina sabe tanto quanto os que ali estão para aprender.
Hoje eu perguntei o que eu iria almoçar e ela disse:
- Eu assei um largato, recheado, tem um arrozinho, um feijãozinho fresco, posso fazer um purê...
Eu disse que o que ela me servisse estava ótimo. E fiquei ali, dando uma forcinha a ela, batendo um papo. Puxei o assunto do carnaval, porque sei se ela sai na ala das baianas.
- Gostou da Beija-Flor?
- Mais ou menos, por causo que a minha perferença é a Portela, porque eu sou portelense derna o tempo que o Natal era vivo. Tem duas coisa que eu sempre fui: Portela e Framengo.
- A senhora desfilou?
- Não, porque no dia do desfile eu acordei com uma dor no estambo que quase me botou dôida. Gumitei tudo que tinha comido na vespra.
- A senhora vai aos ensaios?
- Vou, porque o Uóxto, um vizinho que eu tenho, me leva no carro dele. Ele tem um carro velho, mas o carro dele é um carro convelsive e eu adoro aquele vento batendo nimim. Me sinto uma artista da Grobo.
- Pois olhe: este ano eu nem liguei a TV.
- Que nem o Rubis.
- Quem é o Rubens?
- É uma pessoa que eu tou falano com ele. Conheci ele na Igreja Universal e até agora estamo se dando bem. É que a gente não se falemo muito por causo que nós trabaia demais.
- Ora. Então a senhora vai casar?
- Possa ser, mas... Entreguei a Deus e Santa Duvirge. Seje o que seje melhor pra mim e pro Rubis. Deus sabe o que faz. Se quiser comer um lanche mais tarde tem mortandela, que eu comprei de menhãzinha.

Eu estava pensando muito em chamar uma pessoa para lhe dar umas aulas de português, porque isto seria muito bom pra ela, mas aconteceu hoje, também, uma cena que me fez mudar de idéia. Eu perguntei pra ela se tínhamos laranja em casa e ela me respondeu:
- Tem. Quer que casca, eu casco uma pro senhor comer.
- Não. Deixe que eu descasco.
Eu falei o “descasco” frisando, ensinando para ela. Mas ela, quando eu falei o meu educativo “descasco”, ela me olhou e deu um risinho. Aquele risinho de quem está com pena de quem não sabe falar dereito, sabe? O sorriso que esconde na sua sordidez uma espécie de compaixão por quem erra: no caso o errado era eu.
Eu então me lembrei que o que é realmente importante não é o que ela fala e, muito menos o modo como fala. O que tem importância capital é o seu bacalhau à espanhola, sua rabada com agrião, sua dobradinha com feijão branco e,acima de tudo e antes de tudo: a delícia de feijão que ela faz.

Na semana passada eu levei uma patota da Globo pra comer a feijoada dela. Sabe de uma coisa? O pessoal adoraram."

Chico Anysio
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Sacado no blog dele mesmo: http://bloglog.globo.com/chicoanysio/


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