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16 de novembro de 2008

Eu brinco sim..


Eu corria de rua em rua, com uma meninada comigo, gritando, rindo, no esconde-esconde que era livre. Lembro-me que quando escolhíamos a brincadeira da hora, não nos preocupávamos com os carros, nem com violência, embora eu fosse filha de classe média e morasse em lugar considerado nobre. Isso nem se ventilava, e nem faz tanto tempo assim. A brincadeira do esconde-esconde era a preferida e era brincada no quarteirão inteiro, já que a casa dos meus pais no interior era de uma rua à outra. Chegava em casa sempre muito suada, por ter corrido, gritado, rido e brincado muito até o horário pré-determinado por minha mãe, fosse a noite ou de dia. Eu era muito feliz. Tinha um sorriso inconfundível, porque sempre fui uma menina muito feliz mesmo. Criança criada em interior tem uma qualidade de vida muito melhor e eu fui criada entre ruas estreitas, onde eu ia, já aos 8, 9 anos, sozinha ao centro da cidade, arrumadinha, com uma bolsinha do lado, como uma mocinha, já me achando a mais adulta das criaturas, 'resolver' coisas. Lembro-me que uma vez meus pais decidiram que eu iria estudar em outra escola e, como minha mãe trabalhava o dia inteiro, eu quem teve que fazer minha própria matrícula, ir reconhecer firma de papéis, ir e voltar várias vezes ao colégio, cartório, e tramitações burocráticas que uma menina de 9 anos geralmente é poupada de fazer. Mas eu ia, bem feliz, porque a vivacidade com que eu fazia tudo vinha sempre envolta em curiosidade e não haviam preocupações outras como com proteção contra perigos, como hoje. Minhas férias eram passadas todas nas fazendas do meu avô. Férias hoje, 'roça' amanhã. Todas as vezes eu ia emburrada, porque sempre deixava meus amigos na cidade e tinha de me entocar na fazenda por mais de trinta dias como eram as férias no tempo. Mas depois, com o passar dos dias, aquela vivência de natureza, campo, mato, animais, pessoas simples, minha mãe, aconchego de dormir cedo e acordar cedo, as historias contadas à beira do lampião ou de velas, os banhos de rios e açudes, tantas coisas, me faziam não querer mais voltar. Essas coisas todas me comovem em lembrar. Quanta nostalgia mesmo e como eu gostaria de poder um dia ao menos na minha vida voltar a sentir uma vez apenas, talvez como ultimo pedido, antes da morte, o sentimento puro e terno que sentia na infância, própria de uma imaturidade pueril, sem rasuras, nem outras preocupações. No tempo, que brinca com a gente, eu sinto que a vida vem nos trazendo brincadeiras sem graça, juntando peças em um quebra-cabeças ou em um esconde-esconde onde as pessoas ou os personagens que brincam somem, se perdem, nós levamos a bola muitas vezes, como os donos da mesma no futebol, ou, em algumas brincadeiras a gente se machuca muito. Os sentimentos crescem, mudam. Naturalmente. Passamos a viver entre grades, perdemos pessoas, coisas, nos tornamos hermeticamente envolvidos nas relações, esquecendo da pureza que as brincadeiras tem que ter. Reconheço que cresci e bate aquela dorzinha de saber que aquele tempo nunca mais vai voltar e eu tenho que agora brincar brincadeiras de gente grande...

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