Siga-me.

11 de abril de 2010

Marisa.

Marisa, as mulheres compram com a alma. Elas não são só corpos que cabem em roupas. Elas são corpos que cabem em muito mais que isso. Marisa, as mulheres às quais você direciona suas vendas não estão à mercê do que se é imposto pela mídia, que expõe apenas corpos magros. A mulher é muito mais. Todas são muito mais. Somos pretas, brancas, gordas, baixas, altas. Temos todas celulites, estrias, estamos sempre nos sentindo acima ou abaixo do peso, o cabelo não arruma a maioria das vezes como queremos. Marisa, quando a gente vai comprar uma roupa, é difícil encarar que o preço hoje há que ser compatível com a desonrosa manifestação que suas propagandas impõem, que a mulher tem que ser sempre, e sempre, e sempre magra, branca, tenha o cabelo bom, liso, seja esguia e linda. Não, Marisa, a maioria das suas clientes, inclusive, junta dinheiro pra comprar um roupa "popular" nas Lojas Marisa, mas não pode gastar com lipos, drenagens, limpezas de pele. Ela é mulher, guerreira, que sai pra trabalhar, é mãe, mulher preta sim, num país predominantemente sim de negros. É a mulher baixinha, gordinha sim. A preta, pobre, sim. Não, Marisa, não gosto de ver que a brancura e magreza das modelos que representam a mulherada brasileira, que porventura consuma sua confecção, é um desagravo em minha mente, predominantemente feminina (mesmo com altos graus de testosterona) e que vê, diariamente, entrando e saindo das Lojas Marisa, negras, pretas, gordas, magras, lindas e feias. Elas compram com a alma, com o que lhes resta do sexo oposto em desonra muitas vezes. Admira-me quando vejo que o sexo oposto não pensa mesmo nas celulites da mulher amada quando o que interessa é sim, a alma feminina e quando há alma pelo meio, o corpo fica em segundo plano. Não, não quero só magras perto de mim. Tambem não quero só feias, nem bonitas. Quero a normalidade do me sentir feliz, amada e independente, comprando sempre com a alma e pouco me lixando pro que aparece nas propagandas e no quanto pagam à anoréxica para me representar. A apologia aqui não é à feiura, às celulites e estrias. Não, é ao respeito ao que a mulher conseguiu conquistar mesmo sendo pretas, brancas, baixas, gordas, peitudas, tamanho GG, G, M, P ou PP. Mulher não tem só cabelo bom, mulher é feia tambem, Marisa. Quero ver pretas correndo de lingerie sim em sua propaganda, ou você não vende pra elas? Deixa eu ver se aquela moça que tem um culote acima do esperado cabe na calcinha que você vende, deixa? Ou aquela peituda, que sonha em ter peitinhos e leva horas ali dentro da sua loja pra escolher um modelo que seduza ao seu amado, e se desilude quando vê que as magras, quase sem peitos, nem precisam experimentar antes de levar. Eu não gosto das suas propagandas Marisa, e não sou feia e gorda, não sou preta nem baixa. Tambem não quero ser magra e sem graça, nem tampouco perder a delícia de me entupir de chocolate, com os pés em pantufas quando eu quiser e lembrar que aquela calça que você vende vai ficar mais justa. Quero ser normal, vestir aquela calcinha velha em casa e ainda ser chamada de gostosa, por exemplo. Do seu comercial, Marisa, onde só aparecem mulheres magras e brancas, espero apenas o respeito de saber que a preta ontem pariu e mudou de tamanho M para GG. Vai continuar dando alface à sua magra e branca que a preta pariu, viu? E ela quer se ver na TV.

3 comentários:

A Vaca disse...

Infelizmente, a mídia, as lojas e, na verdade, o próprio capitalismo, criam um padrão inatingível, e que deveria ser inaceitável - e no entanto, a maioria de nós ou não percebe (tamanha a lavagem cerebral), ou é burra o suficiente pra se ocultar, se fechar do mundo, chorar pelos cantos, ou fazer das tripas coração pra comprar o casaco de lã chiquérrimo e fora de promoção.
Esquecendo das metáforas, adorei o texto!

Beijos da Vaca;*

Cria disse...

rsrs ... Muito inteligente, Helena, ficou PERFEITO, amei ! Beijos, linda semana.

Anônimo disse...

Falando em Marisa, faltou dizer que ela foi multada em algumas dezenas de reais por TRABALHO ESCRAVO!! Isso mesmo: eles colocam estrangeiros daqui da vizinhança para trabalhos subumanos em suas overlocks, levando os pobres diabos a desmaios... se é que não houve mortes... Deem uma busca no site da Folha de S. Paulo., Li na edição impressa.
Peço a todos que boicotem essa marca.
Parachoques pelo texto.

Sergio Marcone