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27 de outubro de 2010

..eu, mãe e avó, sem cão-guia.

Minha avó era cega desde que me entendi por gente, embora tenha sido acometida de Glaucoma, segundo contavam, depois dos 40 anos. Embora fosse sogra da minha mãe, ela, minha mãe, assumiu, abnegadamente, a tarefa de cuidar da minha avó paterna. É, e era sogra. Apenas sogra (será que alguma nora vai cuidar de mim, ja que só tenho dois filhos machos?). Embora a criatura tivesse uma filha mulher e mais vários outros filhos, meu pai que ficou com essa incumbência de cuidar da mãe. Ele, meu pai, não tinha uma gota de paciência pra mãe, e, claro, minha mãe, toda a resignação, todo altruísmo possível, sabe-se lá porque, pela sogra.


O cuidar era exagerado, já que ela tinha suas limitações e necessidades especiais. Na época não se tratava assim aos cegos, como 'portadores de necessidades visuais especiais'. Cego era cego mesmo e não saía de casa com cachorro-guia nem bengala. Quem cuidava tinha que fazer de tudo. Lá em casa era tudo em função da minha avó. Tudo sem adaptação pra ela, já que naquele tempo não tinha essa de colocar piso áspero no chão pra marcar caminho, tipo leitura em Braille,  mas ela sabia, tateando, exatamente onde estava cada coisa. Eu lia pra ela a Biblia e as bulas de remédios. Ainda bem que não fiquei traumatizada e leio ainda até hoje, ao menos as bulas.


Minha mãe sempre separava um quarto pra minha avó quando mudávamos de casa e as empregadas eram 'adestradas', assim como nós todos de casa, a ajuda-la imediatamente quando ela precisasse. Na verdade que eu me lembre foram tres casas que passei com minha familia antes de casar, aos 18 anos e sair. Em todas estas um quarto era separado com guarda-roupas, uma mesinha pra refeições e a cama. Eu já dormi, depois de uma dessas mudanças, atras do guarda-roupas da minha mãe, porque não sobrou quarto pra mim. Daí meu pavor, horror e asco de baratas. Mas depois conto essa historia, já que só tenho medo explícito de poucas coisas, baratas, por exemplo.


Como evangélicos que éramos, todos em casa, da Igreja Presbiteriana, íamos à Igreja juntos, a família, mas minha avó era da Igreja Batista, então, ela tinha que ser levada à Igreja dela sempre por algum membro da família. Levada e buscada! Eu era pequena e graças a Deus eu não ia leva-la. Mas minha mãe ia. Resignadamente. O carro do meu pai às vezes parado na porta de casa, mas ela ia levar minha avó andando, de braços entrelaçados e busca-la. Confesso que até hoje não compreendo tamanha abnegação. Viagens só se ela fosse ou bem programadas, chamando os agregados, meio serviçais, pra ficar com ela.


Hoje eu chamaria minha avó com aqueles termos usados hoje, tipo, que ela 'superava seus limites'. É, ela era, no linguajar bem atual, meio 'queixuda', irritante, exigente, ranzinza, mesmo com todo cuidado da minha mãe e sei que minha mãe tambem superava os limites da paciência dela. Ela vivia resmungando, reclamando, queria tudo normal, como se ainda enxergasse (ela tinha os olhos agora da minha mãe). Eu sentia meio que uma certa raivinha da minha avó, porque ela, ao mesmo tempo que dizia me adorar, por eu ser a caçula, me pedia pra cortar as unhas dela, dos pés e das mãos, ofício que eu o-d-i-a-v-a! 


Comecei a engrossar o pescoço e quando eu a respondia quando ela me chamava, gritando: "Oooo queeeee éééé!!??"..ela gritava de volta me chamando de 'desassuntada', que ela tinha 'limpado minha bunda e trocado minhas fraldas' e eu agora tava respondendo daquela forma. Como ela era cega, eu ficava fazendo gestos obsceninhos, dando lingua, me rebolando pra ela. Disso eu me arrependo..hehehe...embora saiba que era coisa de criança. Como é que se tira uma criança dos seus brinquedos pra se cortar unhas de uma velha gorda e cega? E pingar colírio nos olhos dela? Hoje seria um enredo de filme de terror. 


Aos 80 e poucos anos essa avó adoeceu. Eu era adolescente e meu quarto ficava ao lado do da minha mãe. Minha mãe, ao ver que precisava estar mais perto da minha avó pra acompanha-la a noite, etc, colocou minha avó dormindo aonde? No meu quarto, em outra cama, claro. Um dia, eu ia chegando da escola e vi uma movimentação estranha na casa. Entrei e passaram com minha avó, gordona, inerte, nos braços. Ouvi alguem dizer que ela estava já com a pressão arterial em 6 por 1. Estava quase morta...os médicos disseram isso mesmo. Bem, eu me lembrei dessa historia porque eu hoje não tenho mais medo de mortos, acho que por causa um pouco da minha avó, e tambem de muitas outras coisas. Eu não senti a morte dela mesmo, confesso. Ficava tentando chorar, mas não conseguia.  


Ela ficou vários dias ali, dormindo, cega, no meu quarto, mesmo depois de enterrada, porque eu a via gorda, roncando, na cama ao lado. Na minha mente adolescente, a coisa macabra se amplificou em cem por cento e minha mãe não se incomodou com isso, nem sabia, na verdade, assim como não se incomodou em te-la colocado, mesmo doente, pra dormir comigo. As coisas eram assim la em casa. Não existia essa de Bullying, maus tratos por causa de tapinha na bunda, etc. Era tudo condicionado ao comportamento e necessidades. 


Eu dormi vários dias com muito medo, mas me curei sozinha do meu proprio medo, assim como hoje sempre me curo sozinha de várias outras coisas e sentimentos. Minha avó morreu na época e eu aprendi na época tambem que eu era já desapegada de várias coisas e pessoas. E medos. Eu não entendia, assim como não entendo até hoje, toda resignação da minha mãe, que passou a vida cuidando dos outros e, quando resolveu cuidar dela, morreu aos 57 anos, do mesmo jeito da minha avó, que morreu com mais de 80 anos. Lições que marcaram o cérebro e formataram a pessoa que sou. 


Meu conflito (ou certeza) se estende em saber até onde posso ser resignada e até onde sou forte e corajosa em enfrentar meus medos, quando lembro dessa historia da minha avó..Eu sempre penso que minha avó teve que existir daquele jeito e minha mãe tambem daquele jeito. Eu não sei muito a qual das duas eu puxei, mas, pelo e com o Deus que via objetivado ali em idas e vindas de braços entrelaçados, acho que ando tambem tateando aí, sem o cão-guia, sem bengalas, muitas vezes cega e obtusa, outras lúcida, enxergando além...mas, sem medos e abnegada pelo tempo, em me fazer uma pessoa melhor ou pior..que minha avó.

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