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16 de dezembro de 2010

Antonímia.


Me explica aí como faço pra conseguir amar a todos indistintamente, vai. Me explica como faço pra entender que a hipocrisia tem como pano de fundo, o preconceito. Eu preciso entender disso a fundo. Acho que vou morrer sem entender ou sem conseguir lidar com o fato de que, mesmo tendo a plena consciência de que vamos todos pro mesmo lugar, somos meros mortais, de que não somos nada, de que nosso corpo é também um nada, somos todos iguais debaixo do sol, não consigo ter tanta certeza dessa 'igualdade'. A cada dia vejo que não existe  mais essa igualdade. Sendo bem simplória, como posso encarar que alguém que consegue estuprar uma criança, com requintes de crueldade, por exemplo, é igual a mim, pra início de conversa?

Se for para nos referirmos à matéria, corpo, realmente, todos somos iguais e um verme é igual a mim, até. Mas, quando páro pra pensar que não consigo conviver com determinados tipos de pessoas, começo a diferencia-las, me acusando as vezes e me condenando ao infame e atroz preconceito, de que tanto abomino, minha cabeça dá um nó estratosférico, porque vem ao encontro da minha eterna fuga do que não seja coerência e a não-hipocrisia.
 

Mas, o que é essa danada dessa HIPOCRISIA? A hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. A palavra deriva do latim hypocrisis e do grego hupokrisis, ambos significando representar ou fingir. Um exemplo clássico de ato hipócrita é denunciar alguém por realizar alguma ação enquanto realiza a mesma ação. Falta de coerência, então. As únicas pessoas que não são hipócritas são a minúscula e talvez não-existente minoria que é tão santa, que nunca se entregam a seus instintos mais básicos. É a coisa toda de que para se viver bem hoje, socialmente falando, há que ser político, sociável, cínico, fingido.

De qualquer forma, o ser hipócrita, para mim, está no mesmo patamar do ser preconceituoso e, porque não dizer, meio separatista. Então, ainda estou tentando encontrar um equilíbrio nisso tudo, pelo simples fato de que não consigo sequer cumprimentar alguem que as vezes não está conforme o que eu espero que esteja. E eu não aceito ser dissimulada, falsa, a ponto de me forçar a aceitá-la. Então, eu sou preconceituosa, certo? Não vou entrar aqui na definição de PRECONCEITO, porque acho que já é bem mais sabido. Faço, sim, discriminação entre A ou B, certo? Por que não posso simplesmente sentar numa mesa com pessoas que não gosto, não aceito a forma como se vestem, se comportam, etc? Por que não quero ter enfiadas em minha casa pessoas que sei que a índole não é compatível com a minha visão de mundo, de valores, já que todos somos iguais? E aí, o que eu faço? Serei então política, cínica, conveniente, certo?

A discussão é se serei assumidamente preconceituosa ou assumidamente hipocrita. Via de mão dupla. E paralelas. Eu preciso encontrar um equilíbrio, no alto da minha 'maturidade' e da minha elogiada 'Inteligencia Emocional'. Preciso entender que 'moças mais defrutáveis', putas, que se vestem como tal, são vulgares, por exemplo, tem um comportamento inconveniente, são seres humanos como eu (tsk, tsk, tsk), não é mesmo? Como Jesus Cristo, me sentar e comer com elas, certo? Da mesma forma os ativistas religiosos, chatos, inconvenientes, abusadamente 'donos da verdade', tenho que ser tolerante. Mas, por que então existem os guetos? É questão de afinidade, de temperamento, ou isso tudo é balela, pra justificar os guetos e as classes sociais? Minha cabeça dá um nó porque eu sinto asco só em pensar em ter que ser tolerante com algumas pessoas, mas ao mesmo tempo acho que são dignas de piedade, talvez, e de misericórdia, assim como eu também sou.

Meus pais me ensinaram a amar a todos indistintamente sim, mas também me ensinaram, docemente, a não falar com estranhos, escolher 'bem' as amizades e, mesmo dentro de todo um contexto, sarcasticamente me diziam: "..cada macaco no seu galho'. Não importa se são gays, negros, nordestinos ou outro grupo qualquer antropologicamente tidos como grupos que mais sofrem com o preconceito. Tenho intolerancia a algumas pessoas, independente de grupos. Mas não devia ter. Deveria sim, amar a todos indistintamente. É? Tem certeza?
 

Enfim, preciso ter ainda um equilíbrio nisso tudo. Preciso encontrar um ponto, uma linha mestra para saber me entender e até mesmo me comportar, quando sou forçada a exercitar a aceitação alheia, driblando o preconceito, e, ao mesmo tempo, escorregando da hipocrisia e da dissimulação, que me faz tão mal quanto. As vezes acho que já encontrei esse equilibrio, já que hoje em dia tenho pouquíssimos amigos, escolhidos a dedo, dentro de uma leve sociopatia  (não me condeno por isso, é mera proteção), mas as vezes acho que estou longe de acha-lo. Distribuir sorrisos falsos e dar tapinha nas costas de alguem a quem não quero é como se me torturassem.

Seguirei. Via dupla: hipocrisia e preconceito. Me aguardem, eu chegarei em paz. Espero que com minha consciencia, em primeiro lugar.

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