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4 de dezembro de 2010

Gavetas.

Poucas coisas me emocionam hoje em dia, mas, ainda há coisas sim que me causam forte emoção. O que é estranho é que a emoção não questiona em que momento chegar. É a grande diferença de tempos atrás, onde existia uma certa compulsão por estimular o derramar de lágrimas, o êxtase sensacionalista, principalmente religiosamente falando. Hoje me emociono com coisas estranhas, pessoas, atitudes, acontecimentos, aqui, ali e alhures, que alguns ririam em imaginar que ali me emocionei. Até lágrimas caem, no meio de uma festa, por exemplo. Não procuro a emoção, ela vem curiosamente chegando e por dentro é como se a mente, o coração e o corpo comungassem de um amolecimento, um comichão idiossincrático e egóico. A emoção causa isso. Embota sua visão e a condescendência e complacência tomam conta. Antes eu me emocionava em casamentos, coisas desse tipo. Hoje não mais.

Uma das coisas que me emociona bastante, só em pensar, é quando penso no TEMPO. É. O tempo. O tempo, o dia-a-dia, que nos engana a todo momento, nos ludibria, nos fazendo crer que somos eternos. Fico enternecida e com ternura vou olhando a transformações no meu corpo (comungando com Descartes que diz que a emoção diz respeito à alma e sua relação com o corpo), em tudo ao meu redor, nas histórias todas que vou deixando aqui. Isso me emociona muito. Penso todos os dias sobre o que as pessoas vão achar no meu armário quando eu morrer. O que o tempo guardou pra mim e o que eu já fiz com ele. Olho o sorriso e as vidas das pessoas que convivo, que convivi, que passaram por mim, que deixei pra trás, que conheço, vejo as transformações também que são significativas para elas e fico emocionada, sim. Eu e uns amigos queridos contamos histórias de nossas vidas, que fazem parte as vezes de um passado já tão distante, mas que valorizamos como pedras preciosas, ou aquelas jóias que guardamos em Bancos, para em qualquer momento usa-las.

Histórias formadoras de caracteres, que hoje definem quem somos e o que fazemos do que somos. Me emociona saber que algumas pessoas infelizmente usam sua história contra si próprios, não sabendo que elas mesmas são detentoras de atenuantes na vida, e numa só ATITUDE poderiam sim, mudar todo um 'destino', que acham ter sido a elas imposto. Todos somos imperfeitos e se não fizermos a história que almejamos, quem fará? Destarte, alguns fazem um destino (se é que isso existe) tão bonito, que aí me bate aquela emoção. E não falo aqui de dinheiro, riquezas materiais, mas de dignidade, de uma preservação periférica de emoções e tentativas de melhoria, de uma auto-preservação, apenas para construir uma história limpa e, embora concupiscíveis e tão falhos, trazem consigo uma bagagem de vida impressionante. Penso em meus filhos, que aos meus olhos são sempre infantis, construindo cada um sua história de vida e arrumando suas 'caixas' - acumulando histórias - nas suas estantes. Eu olho e me emociono. 

Quando eu morrer, o que as pessoas vão achar nas minhas gavetas e nos meus armários? Pensando nisso, me emociono com a coragem. Coragem de desconstruir coisas pra depois construir de novo, guardar e jogar fora coisas, sem hesitação. E tudo isso faz o tempo. Ele, que me emociona por ser a minha própria estante. O tempo é minha estante, meu armário, catalogando histórias, escatológica e organizadamente falando. Ele quem comanda sutilmente. Eu fico de cá achando que sou a bam-bam-bam, que sou eterna, poderosa, mas ele é quem dita as regras, claro com um Ser Supremo acima de tudo. Fico emocionada em saber que minha estante não tem nenhuma poeira e se depender de mim não terá. Poeira não são defeitos e erros (porque se fossem a minha seria um lixão) mas, digo isto para ilustrar que quando eu morrer, e a emoção bater forte em alguns corações um dia lembrando da minha história, quando forem lá na minha estante, não vão encontrar poeira alguma, nem coisas que não tenham sido extremamente coerentes com um espírito humano que, mesmo sem se emocionar com clichês, ainda se emociona. Até no meio de uma festa...enquanto há tempo.

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