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2 de janeiro de 2011

Uma certa crise.

Vou por aí em uma certa crise existencial, mesmo sendo Existencialista e detentora de uma certa felicidade. No início do ano sempre me vem a sensação de que crises existenciais são normais, já que é momento de reflexão, etc. Mas eu acho que minha crise existencial, talvez por conta dos 40 anos, está mais para uma desconcertante sequencia de constatações que me permito ter, num estudo bem aprofundado de mim mesma e das pessoas. Como não há balanço existencial sem certa dose de angústia, reconheço e não consigo bancar o avestruz.

A primeira sensação que tenho, no meio dessa epilepsia mental, é que eu não sou tão poderosa quanto acho que sou e como as pessoas as vezes me enxergam. Eu não tenho poder sobre quase nada do que achei que tinha. Tá bom. Vão me dizer que tenho, por conta de todo um contexto de independência, etc. Não. Não achei que um dia o sentimento de impotência diante de várias coisas viria tão forte. É que o tempo começa a passar muito rápido depois que a gente faz 30, 35 anos e essa aceleração vem trazendo uma enxurrada de frustraçoes, de arrependimentos e de sentimentos de impotência.

Me vejo hoje calada num canto em que todos falam compulsivamente, pensando em como sou obrigada a aceitar situações que antes eu jamais aceitaria. Me pego cochilando num furacão ou gritando histérica numa igreja. Sorrio quando quero chorar e choro mais de alegria do que de sofreguidão. Amo com ódio e odeio com muito amor. De mim exalam cheiros bons e ruins dos quais nunca havia sentido e tomo banhos com cheiros mais desconhecidos ainda, na tentativa de reencontrar o meu cheiro talvez perdido. Me vejo com sentimentos e me relacionando cada vez menos e com menos pessoas, na tentativa louca de continuar a me encontrar.

Não sei se é uma  auto-indulgência, mas devolvo a mim mesma meus sentimentos de impotência. Fico enjoada de mim e como não quero atingir a ninguem com minhas enfermidades, vomito em mim mesma. Sou a mim mesma subserviente e me auto flagelo. Já que não tenho poder sobre quase nada, a exemplos de impedir a aceleração da violência, da estúpida e para mim incompreensivel cultura de massas, de sofrimentos de amigos, de relacionamentos impossíveis de dar certo, de desventuras e decepções com pessoas, de vozes que insistem em falar coisas que já sei e não quero mais ouvir, dessa orgia desenfreada em busca de amores e amores e amores, da estupidez de alguns que insistem em comprar e vender verdades que não são tão verdades assim, da infame obrigação de aturar gente ruim, mal-educada, pago a conta e prefiro me recolher, no meu sentimento de impotência.

Sou sim impotente diante de muitas coisas. Ou apenas ESTOU impotente, completamente impotente. Por mais que eu fale, não vão me ouvir ou não me ouvem, no presente. Por mais que eu grite, não vão me escutar. Por mais que eu peça, não me atendem. Por mais que eu mande, ordene, não vão me acatar. Por mais que eu saiba, nada sei. Por mais que eu não saiba, sei de tudo.  Impotente diante do que sei que agora não tenho mais e pro que posso ter, apaticamente nem sinto esperanças. Meu eterno otimismo está me testando e eu já troquei minhas armas. Aliás, as joguei fora. Nessa certa 'crise' existencial, armas não são o principal artefato bélico. A insidiosa e pérfida guerra interior por conta de escolhas, acertos e erros é atroz e corta as entranhas, injetando medo nas veias.

O ano começa e eu gosto de saber que sou impotente diante do meu destino, já que acredito num Ser Supremo, mas tenho medo desse gostar, por causa da minha crise assumida. Não vou morrer nem vou me matar, nem tampouco é caso de internação. Penso agora nos que riem disso, nos que não assumem suas próprias crises, tenho pena deles.  Não existem piores e melhores, apenas em momentos diferentes e, diante dessa constatada impotência diante de tantas coisas, me resta sentar e calar, rir e chorar, pensar e sofrer, tudo na medida certa do auto tratamento que sempre a mim faço, num claustro mental. Se sou impotente e não posso manipular e ter as coisas como eu quero, sucumbirei então, as vezes exaurida, as vezes enternecida, ao tempo, esperando a tal crise passar, revelando o que por certo, virá.

Vou em uma certa crise existencial por enquanto, nessa entrada de ano, consertando o que sou, definindo meu ser e estar. Impotente ou não diante das coisas, do tempo, das pessoas e fatos, quebro meu orgulho, minha natural incauta empáfia. Não vou sucumbir, antes, creio que, ao assumir minha crise e fragilidade, estarei mais pronta a encarar  e ir destruindo minha principal inimiga: minha soberba. Meu orgulho está sendo esquartejado. Cotidianamente me reconhecerei ali e aqui, apenas numa metamorfose diária. Impotente ou não. 

E que venha o novo ano.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ando muito down, tristonho e choroso mas, por mais que eu me esforçe não terei sensibilidade pra narrar o que sinto num texto tão lindo. Vc é demais mulher e por isso que vc tem essas crises. Continue assim, ops... sem crise. Di

Anônimo disse...

"E que graça teria a vida se só houvessem dias ensolarados e amigos equilibrados?" Faço minhas as palavras de Caio Fernando Abreu, baby.

Sim, adorei isto: "Meu orgulho está sendo esquartejado." Visceral, Helena, e por isto mesmo de uma beleza poética ímpar.

Um beijo, Dôra