Siga-me.

4 de março de 2012

O bordado - lado avesso.

É o bordado do lado contrário bem feito. Sentido. Com a autoridade de quem quer muito que tudo aconteça e dê certo, do lado avesso. Foi-se a minha professora de bordado que afirmava toda hora que 'a verdadeira bordadeira se conhece pelo lado avesso do bordado'. Morreu e eu senti muito, mais essa perda, porque, além de minha 'professora' de bordado, ela era a sogra e segunda mãe da minha irmã, próxima, mulher vivida, cheia de autoridade e sabedoria na vida.

E eu senti tudo de novo (sofrimento por perdas, como a da minha mãe), olhando rostos dantes tão significantes, mas que agora se perderam nesse tempo cruel, que faz crescer pequenos e anular grandes. Faz feios ficarem bonitos e bonitos ficarem feios. E o MEU bordado vai se formando, para muitos, do lado avesso. E ela me ensinou a bordar olhando o lado avesso de tudo, sem saber. Sem saber que tecia na minha vida, meadas eternas de ensinamentos. Sua doçura no tratamento para comigo ainda salta aos meus olhos e à minha lembrança.

O tempo se encarregou de me mostrar que o bordado que se mostra pelo lado avesso é também, então, de um significado imenso, em contrapartida ao que se mostra perfeito, lindo e incorruptível, do lado que não é avesso. As meadas, as cores, os movimentos da agulha, da linha, das mãos, acabam se tornando o que se tem para traçar o caminho perfeito até acabar a tela que se quer bordar. E cada um tem a SUA tela, o seu motivo, sendo formado.

Cortes e cores de linhas, tempo que se gasta, são os mesmos, e o contrário se forma lindo, capitaneando tropeços, sendo observado apenas por quem tem um olhar mais apurado e generoso. Eu olho agora sempre o lado avesso de tudo, não porque minha 'professora' me disse para olhar no pano sendo bordado, mas por trazer pra perto, pra dentro do coração o macro do que é a vida e seus bordados inescrutáveis. E que não valem nada quando a morte chega.

O que eu bordo, olhando pelo lado avesso, querendo que ele seja perfeito, é o mesmo bordado que alguém ignorante, que não tenha um olhar aguçado do que seja 'um bordado perfeito', borda. Sinto igual, amo igual, desisto igual, quando vejo que aquela imagem escolhida não é tão fácil e eu não vou conseguir bordar até o fim. Ao cortar a linha final, sinto o prazer imenso do que seja amar. Amar o bordado, o ato, que é viver.

Amar, bordando, obedecendo ao que minha doce, sábia e amada 'professora' me ensinou, sempre, mesmo depois de nem saber que eu ainda bordo, que foi amar incondicionalmente, independente do que o outro seja, tenha ou viva. Amar, olhando o lado avesso. Amar, percebendo o amor encontrado num abraço apertado e amoroso de uma velha amiga, que me ama, sim, incondicionalmente, por exemplo.

Querer bordar singelamente, desprovida de sentimentos ruins, baixos e torpes. A linha que se usa é forte, inquebrável. O bordado tecerá a trama ideal, se eu olhar sempre o lado avesso. E D. Niná se foi, partiu desse mundo deixando só coisas boas, um olhar sempre desprovido de acusações, mesmo o MEU bordado não sendo tão perfeito na 'frente', mas no avesso, e eu tendo errado bastante até aprender a deixar o avesso perfeito. Ainda aprendo, inclusive. Se foi, acumulando mais uma perda irreparável em minha vida, em nossas vidas.

Mas a vida segue e eu quero ainda bordar muito. Independente de qual seja o bordado que se borde, quero saber que meu avesso estará cheio de coerência, sincero e, a exemplo de D. Niná, levar comigo o que foi viver uma vida sem dedos apontados, embora erre em alguns traçados. Desejo que o lado certo do bordado seja coerente com o lado avesso, diferente de muitos que, aparentemente são lindos, perfeitos e cartesianamente traçados, e, no avesso, são feios. Bordados bem feitos do lado avesso. Os lados avessos sendo bordados também perfeitos. Amados, admirados e entendidos.


Um comentário:

Larissa Vilela disse...

Tia Bidinha, lindo seu texto e traduz tudo o que eu e toda a nossa familia sentimos nesse momento tao dificil das nossas vidas, a perda da nossa lindinha.