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23 de janeiro de 2011

"O corpo fala o que a mente contém".

Ler olhos é raro hoje em dia. Ler gestos, sentir antecipadamente que alguém vai dizer alguma coisa, antes mesmo da boca verbalizar. Ser sensível a ponto de num gesto do outro perceber o que se passa na alma. Saber o que o outro quer que se faça, interpretando sinais. Sinais sutis, nunca explicitados, jamais revelados. Sinais de desejos, de vontades, de sofreguidão, de alegria. Interpretar os sinais subjetivos numa comunicação subliminar, muitas vezes, é raríssimo.

Para os que não conseguem expressar muito o que sentem, encontrar alguem que consiga ler seus olhos, seus gestos, é algo sublime. Desemboca numa satisfação indescritível. Amigos as vezes tem essa característica de, muitas vezes, num simples olhar, dizer um texto inteiro. Raramente encontrei pessoas que conseguissem ler meus olhares e gestos. Gostaria de falar muito menos do que falo e ser lida muito mais do que sou, sem necessidade de dizer coisas.

Não quero ter que pedir verbalizando que você fique, se prendo sua mão e não deixo que a solte. Também nao preciso que você me pergunte porque estou segurando sua mão toda vez que você quer soltar. Não quero ter que falar, falar e falar que amo as pessoas, se, antes de falar, demonstro em atitudes, por menores e estanques que sejam, que são muito importantes prá mim. Eu gosto de ler gestos e olhares, antes de palavras. É como ler um livro e imaginar coisas. É ler olhos, penetrar a mente e saber exatamente quais as intenções escondidas ali. As vezes estão escritas na testa e o que está sendo lido nem sabe que o que sente, já está sendo mostrado e lido.

Por saber que raramente sou lida, que meus olhos precisam ser vasculhados e não são, me reduzo à minha insignificância e desisto de que assim o seja. Não adianta buscar quem seja sensível a tal ponto e aí então eu passo a policiar os meus olhos no que eles dizem ou evitar gestos que me revelem. Piora mais ainda a situação, já que a maioria das vezes o corpo fala. O corpo grita pro outro o que voce está desejando, mas a falta de sensibilidade e astúcia nessa leitura desvia os caminhos que poderiam ser bem mais curtos, para uma boa comunicação.

Eu gostaria que lessem mais os meus olhos, para que minha boca não precisasse falar o que precisa ser dito. Meu rosto, minhas mãos, meu andar, meu sentar. "O corpo fala o que a mente contém" ("O corpo fala" - Pierre Weil e Roland Tompakow), então, o desenvolvimento dessa leitura deve ser constante. Quantas vezes o toque, gestos e olhares não são muitas vezes mais intensos que mil palavras ditas? Lamento ter que dizer coisas, quando meu corpo está implorando desde sempre algo e a insensibilidade alheia não permite que sejam perscrutadas coisas diversas nos meus desejos. 

Ler olhos, sentir gestos e entender sinais. A minha boca que fala pede pra calar e meus outros sentidos e corpo pedem para serem lidos, intensamente. Quero calar mais e falar mais através do que não seja a boca, parte do corpo usada para tal. Saque meu toque, saque meu gesto, saque meus trejeitos. Vamos falar menos e observar mais o outro, penetrando no que as vezes só ela mesma conhece. É revelador e impressionantemente sublime.

Quero o olho falante e a boca calada,  com mãos que vêem. Tá escrito.

Um comentário:

Marcos Satoru Kawanami disse...

"quem vê cara vê coração sim"
(José Ângelo Gaiarça)