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6 de janeiro de 2011

Leve, se.

Morro de saudade. Morro de saudade do tempo em que eu via tudo leve. As pessoas eram mais desprovidas de tantos pesos e tantas medidas nos ombros. Numa nostalgia ferrenha, morro de saudade de uma certa pureza que cercava meus ambientes, mesmo que, veladamente, houvessem desejos luxurientos. Tenho uma certa razão demais hoje em dia sobre tudo e isso torna a vida mais sem graça e mais pesada. Antes havia mais emoção e tudo era mais fácil. Como diz o maravilhoso Luiz Felipe Pondé, não sei se por não acreditar mais nessa história toda de mundo melhor, é que ainda prefiro a caretice de acreditar em Deus. 

Mas sinto saudade dos que acreditavam em Deus de forma simples. Vivo em busca hoje e sempre de pessoas leves e quase não as encontro mais. É tanto peso. É tanta coisa para se preocupar, é tanta responsabilidade, é tanto lufa-lufa, que me cansa. Me cansa e me bate uma vontade imensa de ter um localizador de gente leve e de também ser leve de novo, embora me achem leve, mas não há mais saída, nem existe esse localizador. Me digam que estou sendo pessimista, faz parte. Faz parte do contexto. Tambem faz parte o desejar conviver apenas com gente leve tambem, subtraindo problemas, noves fora 10. Não sou idiota a ponto de não saber que vida é assim mesmo, que os problemas e aflições existem, mas ainda gosto de sorrir quando a constatação é de que nessa roda da vida, o que resta é pedir a Deus equilibrio e conseguir tomar uma cerveja, desabafando com amigos. 

Morro de saudade dos meus arroubos de impulsividade e inconsequencia, mas os rejeito, sabendo que o que vale hoje, é ter o peso de ser sempre coerente e consequente. E a consequencia do eu ser sempre consequente é me reconhecer pesada, ansiosa e exigente demais comigo e com os outros. Mas isso não quer dizer que não sinto saudade da leveza dos gestos de antes, quando eu era bem mais leve do que sou hoje. A leveza dos adolescentes, que não se incomodam muito com qualquer coisa como me incomodo. A leveza dos namorados que não tinham tantas responsabilidades e a delícia era deitar na grama e olhar o céu. Isso era o que contava. Hoje em dia os namorados tem filhos pra dar de comer, tem dieta para fazer, tem compromissos demais para olhar o céu e ver as estrelas. Não há nem mais tempo pra beijos apaixonados, nem gastar horas desabafando entre amigos, tomando coca-cola. Morro de saudade dos beijos apaixonados e da falta de responsabilidades tantas e não há como voltar atrás, por isso minha descrença em um idílico mundo melhor.

Morro de saudade da leveza da vida, embora cave sempre o que de melhor há nela. Faço o que posso. O que não posso fazer, entrego a Deus e espero que cruzem pessoas leves em meu caminho. É o que mais espero da vida de novo, mesmo morrendo de saudade.  Eu sou nostálgica e gosto de pessoas leves, mesmo que o ser leve seja antigo. É velho, é antigo ser leve. É preciso ter mil problemas. Dá status ser workaholic e ter mil coisas para dar conta durante o dia. Aí não lhe sobra vida. Não lhe sobra leveza, não lhe sobra nem uma leve saudade. Ainda bem que eu morro de saudade, bem leve. Pelo menos me sobra leveza para isso.

Um comentário:

Alvarêz Dewïzqe disse...

cada vez mais vejo pessoas com saudades de como as coisas eram mais simples. hoje em dia tudo muito complexo, automático, sem graça.
mas da pra seguir outros caminhos, mais interessantes.