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17 de fevereiro de 2011

Dia-nada-hiato.

Existem fases que considero e chamo de 'abismais' em nossas vidas. É tipo você estar numa montanha, pedra, lugar bem alto, contemplando, apenas contemplando um abismo que separa você de um outro lugar onde se sinta seguro de novo. Quem já visitou algum Canyon sabe do que estou falando. É uma sensação de 'vazio' mesmo. Tempo nada. Tempo que poderia passar sem aquilo: uma doença, um dia de tédio, encontrar alguém que não queria encontrar, um dia em que nada anda, nada acontece. É um tempo abismal.
Reconheço que todos os dias tem que ser valorizados, numa atitude de gratidão a Deus por passa-lo. Tento ser grata, sim, mas todos os dias fico pensando em como à medida que a gente vai tendo mais experiências, vai também tornando seus dias mais sem graça, já que muita coisa que antes não sabia do que se tratava, já sabe, e  quase nada mais é novidade. É o tempo nada e são fases abismais.
O sangue que corre na veia parece que para, sua cabeça pensa coisas que parece querer trocar por outros pensamentos que não sejam aqueles. É o olhar pro abismo ali bem à sua frente. Fico refletindo em dias assim que eu deveria ter sido ou feito outra coisa da minha vida. Poderia ter sido atriz, ter nascido em outro local, no Afeganistão, ter sido mais baixa, mais alta, mais feia, mais bonita, estar em outra situação que não seja aquela, ter uma cara diferente, gostar e conhecer pessoas completamente diferentes das que conheço.
O tempo parece conspirar e estimula a que você sente e espere que esse tempo nada e essa fase abismal passe. Eu olho e vejo as pessoas num lufa-lufa descabido, parecendo que tudo está gritando, num eco infinito que nada vale a pena. É o tempo abismal. Ele poderia não existir e não faria diferença. Um hiato, um ôco. Um grito que bate e volta como num eco mesmo. Há dias abismais em que até os sentimentos se desequilibram e martelam que você não precisaria estar num não-sentir de nada, ou num não-sentir de tudo. O silêncio é vão e as palavras mais ainda. Não é tristeza, nem sorte, nem alegria. É só um nada.
Os espiritualistas devem ter explicação para esses dias, mas creio nem ser necessário, já que, inevitavelmente eles sempre voltam. Não é vazio, mas também não é estado pleno de felicidade. É um estado letárgico meio que de contemplação, mesmo tendo feito algo ali ou alhures que sinta ter produzido algo. Tudo passa em volta como um carro desgovernado. É um dia-nada, meio sem explicação, que seguramente vem trazendo brisas ou calores, em momentos bons, ruins, sem nada, sem o tudo que os desejos um dia gritaram dentro de você.
O dia-nada. O dia-abismal. O tempo que passa e não passa. O sangue que corre e não corre. As pernas que ficam e que nem querem ir. O sorriso que pode trocar a função com outros sentidos e ser olhos, que não faria diferença. Apaticamente as mãos não pegam. É o dia-nada que nem quer ser tudo. Egóico e seco, parado e árido.  Noite que é noite escura, e dia que não faz sentido ser sol. Não é sofreguidão, é só nada. Autista e só.
Fase de abismo, num hiato calado. Passa.

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