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22 de fevereiro de 2011

Dentro.

Acho que já contei aqui que morei anos a fio em apartamento e comprei uma casa a pouco tempo. Na verdade fui criada em casas, casei e fui morar em casas, mas, eram casas em que sempre vivi DENTRO das minhas casas, sem contatos muito estreitos com vizinhos, talvez pelos locais que morei. Nos ultimos quase 10 anos morei em apartamento, condomínio, onde também não se tem muito contato com vizinhos, isso digo, levantando as mãos pro céu, em gratidão.

Comprei uma casa ha alguns meses o que tem sido uma espécie de laboratório para minha pessoa. Sempre conversamos, alguns amigos chegados que o mundo está meio de cabeça pra baixo, ou o problema está assumidamente em nós, nós estamos intolerantes ou aprendemos a respeitar o espaço alheio, nos redimindo da culpa de tanta intolerância. Um amigo que mora em um predio e tem sua vaga de garagem, mas é prejudicado ao entrar por conta do outro morador que insiste em colocar o automóvel de uma forma que ele tem que suar muito para conseguir colocar o carro dele, que é um carro grande, no SEU espaço. E olhe que sobra um espaço enorme do vizinho para que acomodassem de forma confortável os dois automóveis.

Eu, claro, na minha intolerância habitual fico a questionar como é que as pessoas hoje pensam, num mundo de tanta violência, em que deveriam a cada vez mais se resguardar, respeitar o espaço do outro, evitando assim, mais violência e confusão ainda do que já se tem, e não estão nem aí. A rua que comprei a tal casa é o maior exemplo, para mim, da falta de respeito aos limites e espaços alheios. Primeiro que descobri que a rua é uma espécie de Feudo. Familias mandam e desmandam e  ai de você se for reclamar do som nas alturas, que costumeiramente colocam aos domingos a tarde, hora em que mais gosto de ficar em silencio.

Eles fazem tudo no meio da rua. As crianças brincam no meio da rua, as mulheres estendem suas roupas no meio da rua, na frente das casas, suas peças íntimas, as mulheres conversam e fofocam no meio da rua, brigam no meio da rua, bebem no meio da rua, se estapeiam no meio da rua, seus animais comem na rua, eles sentam nas portas de casa para fazerem tudo na rua, enfim. E não me respeitam também, no meio da rua, já que eu não quero saber de nada, não quero vê-los, não quero ouvi-los, não quero saber nada deles, simplesmente não quero! Claro, já articulo formas de não passar muito tempo nesta casa, já que também não me apego a estas coisas, mas fico todos os dias observando em como o comportamento muda de lugar para lugar, numa cidade como a que moro.

É um bairro central, uma casa com boa localização, pequena, mas que me oferece o conforto de ir e vir até a pé e isso me chamou a atenção na hora de adquirir o imóvel, mesmo tendo carro. Mas ainda estou chocada com a forma desse pessoal viver. Eu nunca tinha visto isso antes na minha vida. Sempre fiz minhas coisas todas DENTRO da minha casa, até com receio de expor qualquer coisa na minha vida. Mesmo quando tinha filhos pequenos, nunca permiti que fossem brincar no meio da rua com outras crianças. Era dentro de casa, com a devida boa medida de educação e de boa vizinhança de cumprimentos, e só.

Meus amigos eu recebo DENTRO de casa, quando recebo. Minha música só eu sei a que gosto, minha comida eu como DENTRO da minha casa. Meus conflitos eu resolvo DENTRO  do meu lar, no recôndito do meu lar. Não consigo entender como esse povo consegue se expor tanto. Será que não tem paz dentro de casa? Será que o problema é realmente meu e eu que sou sociopata? Será que eles é que são felizes e eu que sou a problemática da paróquia? Por que eu até para abrir o portão da minha casa pra guardar o carro na garagem, a noite quando chego, abro de maneira que não os incomode e meu vizinho não está nem aí quando vai sair com sua moto e acelera alto, dando risadas altas e etc?

Por que eu ouço meu rock num volume que pra mim ta legal e não faço questão de que eles ouçam, porque, quem vai saber se alguém gosta ou não e meus vizinhos colocam o lixo que chamam de música sempre num volume que qualquer trio elétrico perde em potência? Eu sou a sociopata? Eu sou a anti-social, louca? Se meu amigo tem o cuidado de estacionar o carro dele de forma que deixe o outro confortavel na vaga, porque raios o outro não faz o mesmo? Criação? EDUCAÇÃO? Aí me chamam de preconceituosa quando digo que a primeira coisa que pobre faz é  comprar um som e querer mostrar que tem esse som, porque essas pessoas da rua mesmo, ela colocam as caixas viradas pra rua. Pra que? Me respondam, por favor.  É prá compartilhar o som deles com quem? Comigo?

Eu não sei quando vou me acostumar a isso, de ver que a rua é o palco das pessoas enquanto pra mim sempre foi o secreto do meu lar, da minha casa. Também não sei se vou piorar ou melhorar, no que diz respeito à tolerância para com quem não está nem aí pra ninguém. Dois vizinhos apenas são respeitosos, vivem a vida deles, dentro de suas casas, se cumprimentam, mas não costumam estar nas portas de casa, o tempo inteiro, expondo suas cabeças ao opróbrio, o que me apavora fazer. Eu ainda não sei se isso é favela, é comunidade, ou é bairro nobre, já que tem excelentes casas por perto. É uma mistura louca que não defini ainda e não consegui entender.

Me resta ir visitar, daqui a uns meses, um corretor de imóveis e ficar analisando o proximo lugar de moradia meses a fio..de preferencia num lugar ermo, no mato, onde não existam pessoas por perto. Difícil, mas, quem sabe, um dia eu vou ser feliz de novo no lugar onde moro, dentro do meu lar, como sempre, assim como meus vizinhos atuais, são..no meio da rua.

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