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2 de março de 2011

Dois de antes.

Um lá, outro cá. Um vai, outro vem. Um distante cá, o outro vivendo lá. Um caminha prá lá entre flores, outro pula poças de lama e se cobre da chuva que insiste em cair. Dois caminhos distantes, que um dia já andaram juntos. Buscam outros caminhos, se cercam de solidão, de amores outros, de festas e purpurinas vãs. Nada faz sentido, mas tudo se perfaz em sentidos, e ao mesmo tempo as experiências enlevam os dois seres que caminham, ora com sofreguidão, ora entre sorrisos e conquistas.
Seus olhos choram a distância e à distância, apenas por não poderem mais se olharem e o tempo vai colocando rugas ao redor dos mesmos. As bocas não se beijam mais aquele beijo perfeito, inteiro, sem vácuos. Eles precisam crescer e sentirem seus espaços sendo consumidos pelo tempo e seus atrozes conselhos e ordenações. Não há segredos que eles não queiram contar um ao outro, mas ficam lá, dentro do peito. A saudade só mostra que ainda não é tempo. Um vai ali, outro aqui. Sabem-se crescendo, dentro de turbilhões de emoções e gritos sufocados de desejo de se encontrarem.
Mas não há como. Não há como voltar, se os caminhos já estão perdidos e os mapas já mudaram. Não há como, se um está no outono e outro em eterna primavera. É uma sensação de impotência que bate em seus corações, em complacência com relação aos mandamentos que nos são impostos. Os sonhos foram separados e eles correm entre montanhas e vales. Os abismos são potenciais transformadores. E a distância corrói, mas faz amadurecer.
Um dia se reencontram, quem sabe, mais sólidos. Cheios de brilho nos olhos por estarem ali, um diante do outro, transformados. A dor da separação talvez tenha provocado um desejo maior de detectarem sentidos maiores no que chamam de amor. No que chamam de paz. O sonho de plenitude ali se mostra, como num impactante e revelador filme de ação ou drama. Um quer muito, o outro também, mas as nuances dos olhares, as mágoas do tempo que passou, a cor da pele, os doces encantos não são mais os mesmos. Ou pode ser também ao contrário: tudo é melhor.
Os cabelos ainda são do mesmo cheiro, as mãos são lindas, ainda mãos de quem produzem muito. Os olhos, ah, os olhos..As rugas não serão problema e só são molduras mostrando que o tempo os fez melhores e mais sábios ou inseguros. Tudo é sentimento e lágrimas são inevitáveis, porque o abraço apertado corta as entranhas de emoção. Não há o que saber, o que dizer. Só a doce sensação de que os anos de afastamento, de vidas distantes, de encontros e desencontros fizeram diferença e agora tudo será eterno.
Mas, um lá, outro cá, fez a diferença por nunca se esquecerem, nunca deixarem de se olharem através do coração, de lembrarem do que viveram, sentiram, abstraíram, doeram, corroeram, sorriram ou desmentiram trapaças. O sangue corria quente nas lembranças e a mente revirava e dava nós quando se lembravam daquele amor que não morreu, mas adormecia. Ou adormece. A distância revela-se como uma dor que corta, mas faz crescer. E o melhor de um lá, outro cá, crescendo, mudando, se reinventando, é a certeza de que um dia, o eterno terá outro molde.
Tudo melhor, nos olhos um do outro, depois que o tempo passou e mudou seus corações. Não mais um lá, então, outro cá. Juntas suas rugas nos olhos, juntas suas mãos, juntos seus passos, escolherão uma estrada bonita pra seguirem, sabendo agora quem realmente são e quais espinhos pisarem. Quem sabe? Um cá, o outro cá. Outro lá, um lá. Um lá, outro cá.

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