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18 de abril de 2011

Cidade de dentro.

A cidade é grande, assusta, amedronta. A cidade grande absorve a formiga, o pátio, o céu. Estou na cidade grande, onde ninguém é de ninguém e por um momento consegue que eu tambem não seja nada. Nem de ninguém. Mas, eu sei que sou. Um ponto no universo da cidade, mas sou. De dentro do casulo, da redoma do meu peito eu sei quem sou. Sou alguém que quer muito a cidade grande apenas por um momento, mas desfaz qualquer devaneio na hora de admirá-la, apenas por saber que o que há de mais precioso está aqui, dentro do meu peito, na cidade do meu coração.

Meu peito guarda sim uma cidade grande. Guarda e revela-se imensamente maior que ela. Seus edifícios, construídos com amores marcantes, sortes inesperadas, amigos sobremaneira especiais, saudade que corta, também amedrontam e assustam, mas fazem desse espaço, aqui dentro do meu peito, a cidade que quero admirar. É o espaço que eu domino, ou ao menos acho que domino. Ele às vezes me maltrata, sossobra minhas crenças, revela-se cruel, mas conheço cada cantinho e posso andar por ele, sendo sempre reconhecida e sendo feliz, mesmo assim.

A cidade grande corrompe, faz de mim invisível, mas aqui, a casa onde eu prefiro estar, onde as lembranças dos sorrisos entre amigos, do amor deixado lá longe, das brincadeiras de adultos, da simplicidade das ruas onde ando, dos que saíram das minhas entranhas, me são assombrosamente mais coloridas do que as ruas da cidade grande. Os prédios edificados em cima de pilares sólidos são bem mais imponentes e a lua não aparece tímida.

Aqui tem canto de pássaros e a cidade grande não tem. Aqui dentro tem o sorriso que chora ao lembrar de carinhos feitos em forma de brincadeiras de amores. Reconhecer minha cidade dentro do peito está sendo a minha maior experiência. A cidade que guarda valores inquebráveis, a cidade que já sabe a quem ama e a quem não ama. A cidade que desejo seja jamais esquecida, mesmo quando eu for embora.

Não quero sofrer as dores da cidade que abriga os desvalidos, da cidade que não pára, que não sente. Também não quero sentir os sons da terra, duros, cruéis, abafados, dos trens suados. Quero a cidade aqui dentro do meu peito cheia de luzes, de sortes, de desejos, de alegria e paz. Quero minha cidade com luzes acesas e, quando se apagarem, alguns lamentem o fato de não vê-la mais brilhar.

Não quero cidades externas, com ruas largas. Basta-me o centro de tudo, em mim, nos meus, nas minhas vielas e becos escuros, onde faróis iluminam sempre minha fé. Quero o sossego do amor e a velocidade do abraço e não o martírio dos trens e vagões que cruzam os buracos da cidade grande. Quero a morte feita na lembrança e não a sorte de viver sem esperança. Quero a cidade do meu peito, que cuido, afago e aprecio, antes da cidade grande, que me absorve. De resto, entrego à sorte a cidade grande que ando. Ela cuidará de si. Eu cuidarei de mim.

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