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9 de maio de 2011

Um dia, quando eu crescer.

  "The magic carpet"  de Victor Vasnetsov
Um dia eu quero crescer. Saber como abandonar as meias na hora de dormir, o bichinho de pelúcia e os risos infantis. Um dia eu hei de crescer. Saber onde e como me comportar, estar sempre atenta aos arroubos das preocupações de adultos e esquecer os devaneios pueris. Um dia eu vou crescer e sei que tudo vai mudar. Vou parar de dormir segura, imaginando que meus pais são perfeitos, ou foram perfeitos. Vou parar de querer jogar gude, de viver sempre cercada de amigos felizes e vou parar também de brincar, mesmo brigando para não entrar e ir dormir cedo. Um dia eu hei de crescer e por certo deixarei meus passos curtos, pulando pocinhas de lama, ou abrindo a boca pra beber gotas de chuva. Vou esquecer que não devo, mas vou querer levantar a noite e deitar entre meu pai e minha mãe, adormecendo profundamente por saber que nenhum monstro enorme vai me atacar na calada e escura noite. Vou saber que o tenebroso pavor noturno sou eu mesma. Um dia eu vou crescer e abandonar os momentos de profundo contentamento em medir os tamanhos das pessoas. Os grandes deixarão de ser enormes, gigantes, imensos. Passarão a ser do meu tamanho, embora alguns insistam em ser maiores, e maiores, e maiores. Vou saber, quando eu crescer, que ninguém é maior do que ninguém e estatura é uma palavra grande, só isso. Maior ou menor, todos são iguais. Um dia eu vou crescer e vou tomar todos os sorvetes do mundo, comer todas as jujubas, andar em todas as rodas-gigantes. Mas, quando eu crescer também vou adoecer mais e buscar em todos os cantos de minha alma a satisfação pelas jujubas, sorvetes e rodas-gigantes. Um dia, quando eu crescer, vou controlar mais minhas criancices e me esconder debaixo da cama apenas quando me sentir ameaçada. Mas só quando eu crescer saberei que se me esconder debaixo da cama, nada mudará. A ameaça ainda estará lá. Um dia, quando eu crescer buscarei as lembranças boas da minha infância e não as encontrarei mais. Encontrando-as, darei a elas o significado mais lógico possível e aí com certeza vou chorar. Vou chorar e lamentar o fato de que quando eu era criança, tinha os olhos naturalmente brilhantes, meus medos eram autênticos e eu tinha coragem de me esconder, até que eles passassem. Quando eu crescer, vou ficar chata, insensível e minhas brincadeiras serão bem outras. Quando eu crescer terei mais do que serei e mesmo assim vou ainda querer ter mais e mais e mais. E o que serei mesmo? Um dia, quando eu crescer, vou me lembrar que fui criança e juntarei meus quebra-cabeças e amontoarei muita areia na praia e farei castelos. Mas, só na lembrança, porque já terei crescido e os castelos já terão sido levados pelas ondas. Minhas lembranças me deixarão enternecida, mas revelarão verdades que, se fosse criança, jamais saberia. Vou brincar disso e daquilo, mas querendo brincar de tudo. Um dia, quando eu crescer, vou brincar de andar pra trás. Vou correr atabalhoadamente e vou cair e chorar, que nem criança. Respeitarei aos mais velhos e serei pudica. Um dia, quando eu crescer, vou pentear meu cabelo do jeito certo. Mas, quando eu crescer, não saberei mais quem eu sou. Saberei que cresci e perderei um pouco a cabeça. mas só quando eu crescer. Agora eu sei que, quando eu crescer, não serei mais a criança que sou agora. Um dia, quando eu crescer, vou crescer e nunca mais vou querer brincar disso..de crescer.

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