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18 de junho de 2011

Queriaquetivessedadotempo.

Eu queria que tivesse dado tempo. De lhe mostrar tantas coisas. Queria mesmo que você tivesse me dado um tempo, de mostrar a você lugares, parques, sensações novas, sonhos, devaneios, dores, cores, trens, carros, luzes, sons, música. Queria que tivesse dado tempo de soluçar mais e de rir com as tempestades. Queria mesmo, que você tivesse outra cor, outra mente, outro espírito, outra sombra, outros chapéus, outras mãos, outras cores, outras palavras, outra vida.
Queria que tivesse dado tempo de colecionarmos muitos chapéus, muitos colares, muitas lembranças e souvenirs. Queria que os céus fossem azuis enquanto víssemos juntos o tempo passar. Eu queria que tivesse dado tempo de várias luas, vários eclipses, de várias meias nos pés por causa do frio, de vários jornais debaixo do braço aos domingos. Queria que tivesse dado tempo de vários cortes no dedo com aquela faca na cozinha e o sopro depois carinhoso e o curativo que sana a dor.
Queria mesmo que tivesse dado tempo de vermos vários nasceres de sóis e àqueles sóis que se pusessem antes de nós chegarmos, daríamos apenas as costas, porque nós dois nos bastaríamos como sol e lua. Queria que tivesse dado tempo de apagar todos os cigarros e matar todas as vontades de comer pipocas no cinema. Queria que tivesse dado tempo de dançar muito com você e rodopiar na chuva, sem pensar em nada mais, a não ser em como a vida é bela.
Queria que tivesse dado tempo de amar e amar, sem deixar que a solidão chegasse, mesmo estando numa multidão de arranha-céus e com pessoas invisíveis. Queria mesmo, muito, que tivesse dado tempo de muita coisa. De saltarmos as poças, de lavarmos os sapatos, de fazermos muito mais cafés. Queria que tivesse dado tempo de mostrar tanta coisa a você, retirando dos seus olhos aquele cisco que você insiste em carregar dentro do seu olho.
Queria que tivesse dado tempo de costurar suas roupas, de esperar seus pães, de mergulhar no mar com respeito, de pintar as portas e paredes com você. Queria ter visto muito mais seus cabelos brancos. Queria que tivesse dado tempo de lhe mostrar esses cantos escuros do meu coração e que você quebrasse o gelo todo que envolve a minha mente e meu coração, muitas vezes. Queria que você fizesse minha cama mais vezes e ríssemos de tudo com mais tempo.
Mas não deu tempo. Não deu tempo e você é como aquele veículo que saiu de linha. Não se fabrica mais e eu tenho que me conformar. Não deu tempo e nossos sonhos acabaram morrendo. Não deu tempo. Mas as luas continuam no céu, o sol continua nascendo e se pondo, as pipocas no cinema continuam lá e os filmes também. Só a gente não deu tempo. Só eu não tive tempo. Só você não ME deu um tempo. É que não deu tempo, e eu nem vi que não deu tempo. Só quando não deu mais..o meu tempo.

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