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10 de julho de 2011

Côrte.

Talvez a desconfiança seja pra mim a maior das dores. Só quem já foi caluniado para saber do que estou falando. Ser acusado de algo que você não fez ou ter sua palavra colocada em duvida. Há muito, mas muito tempo mesmo, creio que idos mais de 10 anos que tenho, diariamente um pacto comigo mesma de estar com minha mente, corpo e espírito livres. Liberdade para mim é ter a consciência sã, tranquila. Liberdade para mim é andar com os pés no chão, sendo coerente com minha consciência e sempre ganhando a luta entre o que falo e o que vivo. É porque já vi muita contradição e incoerência, principalmente dentro da igreja, por exemplo, lugar em que praticamente nasci e cresci. Já fui ativista religiosa e vivia muitas vezes de aparências, afinal, eu era OBRIGADA a dar exemplo.
Meus sentimentos então borbulhavam e eu queria simplesmente poder dizer ou fazer coisas as quais eu simplesmente não podia. O cerceamento do meu ir e vir me obrigava a, por exemplo, dissimular certas atitudes, o que me deixava extremamente deprimida e descontente. O tempo passou.  Tive então alguns cortes epistemológicos em minha vida (BACHELARD) que me fizeram como me despertar para uma consciência do que seja esta liberdade que eu tanto queria: minha mente coerente com minhas palavras. Daí em diante não consegui mais esconder meu ir e vir e não consegui, naturalmente, deixar de ser coerente com o que desejo ou não. Aí me exaspera fazer coisas escondida, me exaspera mentir, me exaspera, portanto, que duvidem quando digo que não fiz algo, ou que fiz algo. Se eu fiz, fiz assim, desse jeito, se não fiz, não fiz e digo os motivos.
O resultado é uma paz interior e uma certeza de que nada mais me é tão novidade, ou, explicando melhor, o que antes era um bicho de sete cabeças para minha consciência, hoje não é. E, ainda bem, minha consciência dita coisas, a maioria delas, condizentes com bons princípios, valores legais e desapego do que seja transgressor. A transgressão já não me atrai. O esondido muito menos. Mentiras mais, pra quê?
Comecei a pagar preços altos, porque as pessoas em geral não passam por uma epifania e eu já passei. Posso claramente agora ver e vislumbrar meu ser como uma água cristalina, mas, quase nunca o outro me vê assim, ou eu não percebo que me vêem, ou eu sou realmente incompetente para fazer-me ser reconhecida assim: clara, transparente, leal e coerente. E as pessoas em geral, num mundo desleal, catatonicamente mentem, enganam, iludem, dissimulam e conseguem conviver com isso de forma natural, como se o natural mesmo seja viver assim.
Eu não. E meu preço é altíssimo, no superlativo absoluto sintético mais superlativo absoluto sintético da palavra. E me dói. Dói como um corte na própria carne que duvidem da minha palavra ou desconfiem de mim. Dói e me atordoa os sentidos me fazendo estar ao lado da cruz de Cristo. Ser um dos ali pregados, humilhados e impotentes ladrões, que a eles só restava o olhar mesmo de Cristo. Eles ao menos estavam ali por terem cometido algum delito, mas, ser caluniado é cortante porque não há pecado que lhe seja imputado. Você não devia estar ali.
Não que eu não erre. Claro que erro. Mas, se faço algo que seja incoerente com o que não estou focada, ou, se me julgam mal, é como se eu pegasse uma faca e começasse a me auto flagelar. Aí eu me corto, aí sangra, aí dói e aí eu tenho que sarar aquilo por dias e até assumir consequências das dores e do trabalho que dá curar aquelas chagas. Muito pior do que viver coerente, e, mesmo vilipendiada, estar em paz com minha consciência.
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Uma vez viajei com meu namorado para uma cidade que gosto muito e ficamos hospedados numa pousada de um amigo dele, que vou chamar de João. Já havíamos programado passar poucos dias, mas, por ser um lugar agradabilíssimo, fomos tentados a ficar mais. Nesta pousada estávamos só nós e mais um gringo, amigo do João. Tudo muito legal, na absoluta paz. Para minha cabeça. Sou muito educada e tratava a todos com educação, sempre na maior cordialidade.
Esse gringo, que é chefe de cozinha, resolve que fará um almoço para todos nós e eu e meu namorado, prontamente fomos até ajudar na cozinha. Troquei poucas palavras com o gringo, perguntando amenidades, comentando sobre coisas bobas, temperos, e etc. Almoço em paz, tudo na sua normalidade. Na noite seguinte, estava no quarto e meu namorado lá fora conversando com eles. Quando saí do quarto senti um clima muito pesado. O namorado sério, nervoso, zangado, na verdade, irado mesmo. Pra encurtar a historia, depois de muito insistir, ele acabou me contando, entre muita irritação e constragimento, que João tinha chamado ele, para dizer que o gringo havia dito que eu havia me insinuado para ele quando estava na cozinha, no tal almoço citado acima.
Eu não sei muito dizer aqui qual foi meu sentimento ali naquela hora, porque não foi um só sentimento. Foram vários: de ódio, de impotência (eu era a unica mulher num lugar com um gringo horroroso (acho que americano) e um israelita louco e sequelado (João é um louco drogado, árabe, judeu, uma zorra dessa)) e humilhação. Meu namorado, tomado por uma talvez ingenuidade, sabe-se la, foi ludibriado pela loucura do amigo João dele lá, que disse estar contando aquilo pra ele, 'porque era amigo dele'. Bem, eu jamais faria uma coisa destas. Jamais daria em cima de um homem num ambiente como aquele, ainda mais da forma que ele relatou, nem que ele fosse um galã de novelas.
Me senti ultrajada, brigamos, fui embora chorando muito naquela mesma noite, depois de uma briga feia porque eu queria mata-lo mesmo, ou ao menos voar naqueles pescoços com minhas unhas, apertando até eles dizerem que tinham era parte com o cramunhão, aliás, eles, como bons covardes que são, sequer tiveram coragem de falar comigo depois que souberam que eu já sabia.  Tentei abrir um processo contra eles mas depois desisti. Eu sei quem eu sou e que eles não devem passar de vermes, do nada tirando uma estória escabrosa dessas, numa maldade descabida, querendo atrapalhar minha historia com meu namorado, ou sei la porque motivos alguem faz uma coisa dessas. Eu sei que vislumbrei ali de forma contundente como a calunia e difamação são perturbadoras e como aquilo me fez refletir sobre minhas posturas, mais uma vez, estas sensações citadas acima, de , como Nietzsche, suportar a 'transvaloração dos valores', me nadificar e descer e encontrar o Hades do ser humano: infame, torpe e cruel.
Não. Eu não aceito que duvidem da minha palavra, nem dos meus atos.  Depois que fui mãe isso 'piorou' mais ainda, em outro texto talvez explique isso melhor. Tento viver com lucidez, embora rompendo muitos dogmas, mas de forma que não precise mentir, nem estar em situações como esta. Eu adorava meu namorado, estava ali com ele porque eu queria, sou fiel, leal, de certa forma até reservada, embora cordial e simpática, então, aquilo ali ilustrou de forma forte a invasão que fizeram em meu ser, me acusando de algo que eu jamais desejaria fazer, nem de longe.
É a antítese do desejo sobre o fazer. Da sã consciência com a crueldade alheia de arrancar suas vísceras fora e olhar uma a uma pra ver como é que você consegue ser alguém tão especial e ela, a criatura que lhe ataca, não consegue. Aí um ser infame lhe disseca, não consegue detectar sua compleição, volta, vai dissecar a si próprio tentando ser igual a você, não consegue e morre, fedendo, envolto em seu próprio fel.
Não duvide de mim. O que eu quero eu faço, mas eu não faço mais nada que minha consciência depois me corte e, quem sabe, me mate. Dói ser caluniada e não ser entendida, ainda mais quando o que voce quer é viver com sua consciencia tranquila. Dói. E eu não gosto de sentir dor. Nem ninguém. Me ofende, me faz sentir desrespeitada e me humilha. E estas tres coisas são peças fora do meu dominó e quero que continuem fora. Não me leve à côrte porque eu não mereço ir pra lá, a menos que eu queira e vá com meus prórpios pés, aí, eu mesma, com certeza, direi que preciso estar ali.

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