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18 de agosto de 2011

Simple Past.

Eu já tomei banho de chuva, já saí correndo pra ver o sol forte lá fora e se estava chovendo. Também já ouvi uma música que gosto muito e já disse a um amigo especial que o amo muito. Sim, eu já desisti de muita gente e já chorei só em ver o sol se por. Já vi a lua fazer caminho prateado no mar e quis andar nele, apaixonada.

Eu já cortei meu dedo cozinhando várias vezes, e lambi o sanguinho e voltei a cozinhar de novo. Já saí sem casaco e senti muito frio. Também já sentei em um banco de praça pra namorar e já senti um vento bom de brisa de mar algumas muitas vezes, curando todos os meus problemas. Sim, eu já olhei feio pra algumas pessoas e também já sorri pra outras com cara de boba, apenas por gostar de alguém, que sequer sabia porque eu estava sorrindo pra ela.

Já me entupi de comida plastificada, só pra achar que ficando um pouquinho mais gordinha as pessoas iam me ignorar. Também já deixei de comer, apenas por estar fugindo de alguém, ou de algum desejo enorme de, ao invés de comer, querer me refugiar embaixo de um edredon e chorar até morrer. Já pintei e bordei. Bordei cachecóis. Pintei paredes.

Já senti o mar bater nas minhas coxas e já me deixei levar, boiando em alguns rios. Já fiquei horas com sono, sem poder dormir. Já dirigi cantando alto, já assustei alguém brincando de esconde-esconde. Sim, já contei estrelas e já sacudi arvore pra comer algum fruto que sabia que ela ia deixar cair. Já desisti de alguma coisa e depois voltei a lutar por ela. Já lutei e desisti. Já saltei de muros altos. Já soltei pipas. Já lavei muitas roupas e já sujei muitas outras.

Já senti muito calor e muito frio, já me deliciei com um sorvete que mais parecia um final de vida. Já corri também de alguém. Já fiz contas para sobreviver. Já fiz colar de contas. Já surtei apenas por saber que alguém não ia fazer o que eu queria. Já amei. Já odiei. Já participei de seitas e religiões que nem minha sanidade pode contabilizar e a todas disse não.  Sim, eu já tomei banho de chuva e já disse sim ao tempo.

Já adoeci e sobrevivi, já consagrei meu corpo e depois de sacramenta-lo, deturpei sua história. Já acordei em meio a uma tempestade e chorei por minha mãe. Já me pendurei no braço do meu pai, numa brincadeira que só nós sabíamos brincar. Já quase me afoguei. Já morri de amores. Já desci ladeiras e subi montanhas. Já ri até chorar. Já havia feito.

Já corri, saltei, brinquei, falei, beijei e dormi. Já dancei e já me meti em enrascadas que até Deus duvida. Já tive muita . Já sonhei com palcos, com glórias e Alices. Já manipulei histórias e já desdenhei de algumas outras que não consegui completar, porque eram da Carochinha. Já entrei num particípio passado intenso que nenhuma língua, por mais que seja perfeita, saberia conjugar. E era só um passado simples.

Já soçobrei dentro de um copo, por pensar que ele estivesse cheio demais, e dentro dele nem tinha algo que me desse prazer ou me fizesse afogar assim. Já consegui chegar numa estrada que nunca teve fim e voltar, feliz da vida. Já vi amigos morrerem, já vi amigos renascerem. Já enterrei meu coração e já escolhi nomes de pessoas. Já pari. Já matei tanta gente dentro de mim. Já cheirei flores e pisei sim, em outras.

Mas eu havia dito, era particípio passado e eu já fiz. O simples, o passado, eu já estou nele. Virou passado simples. Renascida e pulando poças e o sorriso jamais fugidio. Corro e alcanço o simples, e o passado vale apenas para somar. Passado, poças, chuva, sóis, luas, amigos, amor, ódio, perfeição.  Participo de tudo isso e a soma me deixa feliz, mesmo desbravando o futuro e matando leões e feras. E colhendo flores. Particípio, passado. Agora. Foi. Terá sido.

Um comentário:

Andressa C. disse...

Se passar por mim, terá sido. Se eu voltar a viver no passado, vira presente.