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1 de setembro de 2011

Circunstâncias.



A solução é ter um carro. Aliás não, é ter uma casa própria. Pensando bem, é ter uma casa na praia. Olha, na verdade, é passar num concurso público ou ser um empresário de muito sucesso. Ah, não, a solução é ter muitas jóias, barras de ouro, investir na bolsa ou experimentar de todos os prazeres que o mundo e a vida oferece. Aí, o carro que eu quero eu VOU comprar. Aí, o EMPREGO que eu busco, eu um dia VOU ter. Aí, aquela calça, aquela blusa, aquele terno, aquele vestido, um dia eu VOU comprar. Mas eu já tive, e agora? Eu vou querer outro, e outro, e outro.
Minha mãe morreu aos 57 anos, dizendo que assim que se aposentasse, ah, aí sim, ela ia ser feliz! Ia viver, viajar, se dedicar à casa dela, às suas plantinhas, a tudo que ela, ao longo dos árduos anos de trabalho, não pôde fazer. Se aposentou em dezembro, em fevereiro do ano seguinte, faleceu de um AVC, derrame, que, se não a tivesse matado, teria deixado sequelas terríveis, irreversíveis e, claro, ela estaria dependente até hoje de algumas pessoas, para sobreviver, e, quem sabe, vegetar.
Claro que isso foi uma bomba na minha vida e dos meus familiares. Ela era o pilar que sustentava nossa casa. Era a alegria que caminhava nos corredores e juntava, reunia a família. Acabou, foi embora muito cedo e o aprendizado com isso foi um só: HOJE eu tenho que ser feliz. A gente passa do lugar comum para a vida como ela é. Eu passei do lugar comum para o corte na carne. O som da voz da minha mãe usando o futuro em suas frases ainda ecoa, mas eu a rejeito. Não rejeito o som da sua voz, mas as palavras. Rejeito o apegar-se ao futuro.
Hoje é o dia de eu acordar e ser feliz, estar bem, ser grata a Deus por tudo que ELE me dá, seja R$ 10,00 ou R$ 1.000,00, porque eu preciso fazer a diferença e viver esse aqui, esse agora. Isso não é auto ajuda nem um texto qualquer. É vivência. Aí eu saí correndo atrás de ser feliz, mas um ser feliz em que se no pouco eu estiver bem, no muito estarei bem também. Não, não olho as circunstâncias mesmo. Dores, problemas, são os leões que temos que matar todos os dias, mas a FELICIDADE tem que ser subjetiva e acontecer hoje! Doeu em algumas pessoas e dói até hoje, mas, acaba que me sinto feliz por ter sido coerente e não ter permitido que outros fossem infelizes por minha causa. Se eu não fosse feliz, não conseguiria fazer aos outros felizes, apesar das aparências. É um egoísmo que transcende, positivo.
Há dias atrás me vi em situações difíceis e me exaspera o fato de que as vezes nos relacionamos com pessoas que são realmente mais tendentes à melancolia, à murmuração, a gostar de sofrer e acabei me contaminando muito com isso, esquecendo dessa premissa que tenho em minha vida, que é mesmo a de SEMPRE SABER QUE TENHO, SOU POSSUIDORA DE FELICIDADE. Hoje, agora! Choro, vou ao fundo do poço as vezes, me permito sentir vazios, ocos, tristezas, porque sou humana, e sujeita a tudo. Mas eu sinto muito forte uma coisa aqui dentro dizendo: 'Levanta, esqueceu que você é feliz?'.
O mundo é mau, é torpe, é violento, é insano. As pessoas são infames, não gostam de ver o outro feliz. Mesmo sendo humana, com essas perdas e com uma busca desenfreada que já fiz, sozinha, dentro de mim, consigo hoje ter essa resiliência. Eu observo muito as pessoas, embora seja meio 'bicho-do-mato' e, essa minha observação me faz lamentar cada vez mais o fato do ser humano não buscar mesmo o seu próprio bem, amar-se a si mesmo, independente de classe, cor, gênero, opção sexual.
Estou tendo a certeza cada vez mais que aquele que se ama, consegue ser feliz, independente de qualquer coisa (sim, até de fatores sociais!). Quem não se ama, não sabe viver. Fica se batendo entre as pessoas, deseja o que não é seu, não tem sabedoria para lidar com as relações todas da vida, ceder, respeitar ao outro, votar consciente, etc.
Desde que tive essa experiência trágica da perda da minha mãe, isso há muito anos atrás,  e ter passado por outras tantas experiências traumáticas e também de sucesso, percebo que, ainda que eu busque tudo, tenha tudo, se me faltar a certeza de que a vida é efêmera, nada vai me adiantar. Já se sabe que essa sensação de constante 'felicidade', ou de depressão (afora a doença, ou eventos trágicos estanques) se deve a algum fator genético  ou está relacionado a fatores como à anatomia cerebral até.
O fato é que, não há que se debater tanto nesta curta vida, sempre em busca, em busca, em busca, condicionando a sua felicidade, nem à outra pessoa, nem a fatores externos. Não. Eu me recuso a que eu morra como a minha querida mãe morreu. Ela cantava uma canção (do vídeo), aliás, cantávamos na igreja, que sempre me vejo cantarolando e que diz "Não olho as circunstâncias, não, não, olho o Seu amor, Seu grande amor. Não me guio por vistas, alegre sou!". Por que ela não viveu isso, enquanto respirava?
Não posso também permitir que tirem minha paz. Me exaspera gritar, ter que lutar e guerrear por algo (muitas vezes revidando provocações), já que isso é tirar minha paz, ainda mais em embates pessoais. Parece que algumas pessoas nasceram mesmo para tirar sua paz e sem que você perceba entra em sua vida e lhe perturba, cerceando o que de melhor há em você, que é sua estabilidade e sua emoção. Aí eu me vi, há dias atrás, me debatendo em vãs tentativas de dizer: "Ei, eu sou feliz sim, independente de qualquer coisa, de eu passar frio, de ter que trabalhar muito, de ter que ir e vir, de, de, de". E alguém ao meu lado murmurando, sem apoiar a idéia de que o IMPORTANTE É SER FELIZ!
Putz! Confundem felicidade com TER apenas. Confudem felicidade com aprontar coisas infames por aí. Confundem felicidade com trair, como se estivesse 'curtindo a vida'. Confundem felicidade com o externo, apenas com beber, sair, viajar, etc. Com parar de trabalhar e 'curtir a vida', sem dar um prego num sabão, achando que, se a vida vai passar, os outros que trabalhem. Os critérios são sempre muito externos e o ser humano acaba por morrer assim, completamente infeliz. E, claro, por VIVER assim, também sempre EM BUSCA de felicidade.
Minha mãe não está mais aqui para viajar, fazer as coisas que ela sonhou a vida inteira fazer quando parasse de, enfim, trabalhar tanto, como lhe era peculiar. Mas eu estou aqui ainda, lembrando dos seus ensinamentos, da sua fé em DEUS (que eu jamais vou deixar de ter), da sua alegria, da sua vitalidade, da sua sempre disposição em ajudar ao outro, mantendo o anonimato, apenas por ser mesmo generosa.
Quando eu morrer, digam que fui feliz aqui, nessa terra. Mas mais que isso, quero que, apesar de qualquer circunstância, quero que me vejam sim, sempre com a esperança no olhar, buscando ser feliz agora, nesse minuto que escrevo isso, no minuto seguinte, na próxima hora, no dia todo, que é o HOJE. Com certeza, eu sendo muto feliz, saberei fazer feliz aos que me cercam (aos que querem, claro), esperando sempre contagiá-los e encorajá-los a viverem o hoje, bem felizes.

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