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30 de novembro de 2011

Da boca.

'Aja antes de falar e, portanto, fale de acordo com os seus atos.'
(Confúcio)

A boca fala o que está no coração. Fala? E é sábio nem falar, muitas vezes. Decerto que a vontade, o desejo é falar, falar, falar, até gastar todo estoque de pensamentos. Mas é improvável que o verbalizar, por mais que se verbalize, consiga definir tudo que se sente. Muito improvável. A mente trabalha e também organiza frases, orações, tantas coisas, mas que, sim, não devem sair da boca. A boca é o instrumento mais cortante.

Os que não conseguem falar, os mudos, se viram em vias de comunicação, com o que lhes resta: mãos, gestos, mímicas, mas também estão 'falando' alguma coisa ou outra. A comunicação é realizada. Os sons, importantes em algumas coisas, não são tão importantes em outras situações. E o olhar? Grande iluminador de rostos, guia de amores, sinalizador de sutis desejos não revelados pela boca.

Mas é isso. Eu quero falar da boca, das palavras que são ditas para ferir, principalmente. São ditas sem sentido, muitas vezes, mas também, vez por outra, ditas com muito, muito sentido. Para maldizer. E a maledicência, para mim, é um dos maiores males da humanidade. O maledicente fala mal para se proteger, para ter aquele álibi de que, se errar, será redimido, já que, qualquer um erra. O maledicente, apesar de usar a calúnia também para destruir, geralmente procura apontar principalmente os defeitos, encontrar as falhas dos outros, para manchar a qualquer custo, qualquer reputação.

Tem pressa em levar as notícias adiante e se compraz no escândalo alheio. Se revela um exímio leitor de publicações que o deixem antenado sobre assuntos diversos, para fazer comparações entre o que é ruim, com o que é pior ainda. Se sente atraído por más notícias e morre de felicidade quando alguém erra. Arquiteta a destruição de amizades. E usa a boca, é, a boca é sua maior aliada. Fala, fala e fala o que quer. Engana, corrompe e faz soçobrar qualquer indivíduo em suas próprias concupiscências. Não existe escrúpulo na boca de quem gosta de ser maledicente.

Tenho medo da boca, que beija, que dá tanto prazer, desde à infância. Tenho medo do que ela pode fazer. Do tanto que ela pode destruir, das palavras que dela podem sair. Não precisa bater, não precisa agredir fisicamente, muitas vezes, basta uma palavra, uma frase, para fazer ruir os mais lindos castelos. Matar sonhos, destruir mentes, afogar sentimentos, destruir uma caminhada inteira. Filhos sem rumo, mães chorando, por terem dito coisas destrutivas, marcando a mente a ferro em brasa. Eternidades esmagadas por palavras.

E o coração precisa, então, se encher do que é doce. Talvez conseguir se afastar dessas pessoas patologicamente doentes, maledicentes, para deixar seu coração limpo, cheio só de coisas legais, pensamentos bons, muita música gostosa, que alivia o espírito, se cercar de gente que se afaga com palavras, com gestos e palavras boas, palavras amenas, palavras gigantes em amor. Gosto de bocas que se beijam, independente de sexo, cor, idade, já que o beijo revela o silêncio, transformado em mente e coração. E a boca é o instrumento para tal mistério, através do beijo. Gosto de silêncio. Beijo é silêncio, não dá prá falar beijando, nem prá beijar falando. E isso é muito bom.

Gosto da boca que morde os lábios de medo, mas que depois consegue se levantar e ter muita coragem, para depois rir dos desafios conquistados. E rir, rir muito, com sinceridade! Da vida, das coisas simples. Até do próprio maledicente, que acaba se enrolando todo com suas artimanhas. O olho é a vitrine, a boca a roupa em exposição. O hálito tem que ser o perfume da palavra. E a boca será, então, o veículo condutor do mal e do bem, sem dúvida. O maledicente morrerá pela boca e o que não é maledicente, viverá, aproveitando o que o coração mandar, porque a boca conduzirá para fora, só o que for bom.


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