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7 de janeiro de 2013

Tão cedo.

É o cheiro da lima, tirada do pé, os sorrisos ao redor da mesa. Ou mesmo os momentos de tensão e tristeza. Numa maturidade precoce, em que as vezes acho que eu mesma provoquei, sinto imensa saudade. Saudade da família, da vida entre pessoas historicamente 'conservadas' ao seu lado..vendo as outras famílias que visito e me calo, porque chorar, lamentar, relembrar, dizer, gritar que você já teve aquilo ou isso, é pouco demais. A vontade que dá é de gritar aos outros, que aproveitem, vivam, desfrutem, beijem, sorvam, suguem, tudo que puderem, porque passa.

Eu não achava que ia passar tão rápido em minha vida, algumas coisas. O questionamento sempre há. Dos porquês, dos motivos que a vida teve em me 'oferecer' tanta coisa tão cedo, me fazendo, agora, tão cedo também, ter experimentado tantas perdas, dores, dissabores, vivências, etc. A morte e falta da minha mãe foi uma delas. Aos 57 anos uma mãe não pode morrer, deixando uma filha se sentindo ainda meio que dependente do seu carinho e amor. Outras coisas, eu mesma cavei, eu mesma 'escolhi'.

Mas, claro, óbvio, existem pessoas com situações muito piores que a minha. E eu não estou tão assim, pior. Mas sinto, e muito, como se minha visão de mundo se ampliasse, todos os dias, quando experimento nos outros o que já vivi, tão cedo. Tão cedo. E esse sentir se mostra intenso demais, por conta do desejo imenso de entender a vida de forma também mais ampliada.

E começo a soltar verbos no passado: 'Já vivi isso, já tive aquilo, já passei aqui, já senti isso'. E fico, assim, catatônica, inerte, achando que estou à beira de um precipício, sem mais (ou tantas) saídas, sem mais horizontes, sem mais caminhos a seguir. Aí, com o olhar marejado, só espero que a vida seja, sim, para mim, benfazeja. Não posso pensar diferente e querer diferente. A minha saudade de tantas coisas, numa certa 'inveja' dos amigos que ainda tem (refiro-me a situações de família, aconchegos, etc), fica aqui dentro e só eu sei a grandiosidade disso. 

Eu queria botar uma mãe ontem no colo, eu queria ontem pedir emprestada outra mãe na cozinha, reclamando dos afazeres, eu queria voltar no tempo e correr descalça na terra, me sentir 'em casa' de novo naquela casa outra que fui, existi. Eu queria poder ter o poder de reconstruir tudo,mas não posso. Só posso construir em cima do que existe. No presente, no hoje. Tudo foi cedo e foi tarde, ao mesmo tempo, em minha vida. 

Essa saudade me dói muito ainda, mas eu não consigo mais resgatar algumas coisas, porque me sinto até constrangida, por não querer comparar as situações. Tudo era muito feliz. Tudo era muito perfeito e, de repente, tudo acabou, feneceu. E o meu caminhar depois se modificou, meu olhar se modificou. Sento e choro, sabendo que o nome que se dá ao que se espera é esperança e eu espero muito que, assim como tudo mudou, tão cedo, a vida, Deus (porque eu acredito e quero) vá direcionando meus caminhos, amortecendo a saudade que sinto. 

Mas eu também rio, de soslaio, desejando que os verbos mais benfazejos sejam conjugados no presente, a partir do cheiro da lima, tirada do pé, por um amigo, numa chácara cheia de frutas e aconchego familiar, seja no amor de um filho por uma mãe que sequer fala mais com precisão por conta de uma doença, mas que parece desenvolver com ela uma conversa longa e cheia de palavras bem ditas. E meu amor a essas pessoas cresce a cada movimento e seta de aprendizado, porque quero fazer e refazer meu presente todos os dias, mesmo tendo a saudade e as lembranças tão fortes ainda.

Eu vejo, eu sinto, eu tenho, eu gosto. Tudo vai acontecer, agora. E um dia, vou achar que passou e que foi, de novo, tão cedo.


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