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4 de fevereiro de 2013

Eu sou a culpada.

Quem já perdeu alguém muito próximo, quem já teve algum caso de morte na família ou de algum amigo, alguém muito chegado, sabe que, em algum momento quer se culpar alguém por isso. Eu cheguei a culpar Deus pela morte da minha mãe. Até hoje ainda penso nisso. Talvez por ela ter morrido tão cedo e eu também ter ficado aqui, sem ela, também cedo. Aí eu ficava me perguntando porque ela foi e eu não. Ficamos elocubrando sobre o fato dela talvez não se cuidar, já que era hipertensa, enfim..Não tem jeito, buscam-se culpados, aparecem logo os questionamentos, a desilusão.

O Brasil inteiro parou diante da tragédia que se abateu sobre a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Ali, como eu, muitas mães viram seus filhos saindo prá uma balada, muitos amigos se juntaram para sair, displicentemente, para curtir a noite, ver mais um show, etc. Digo como eu apenas porque me senti uma delas, já que tenho dois filhos. Talvez nem fossem a uma boate como aquela, mas, poderia também ter sido em algum outro lugar e acontecer uma fatalidade como esta. Ou poderia ter sido comigo.

Aí vejo agora na TV, no rádio, na internet, em toda uma mídia sensacionalista, depois de tanta dor, depois de tanto sofrimento, a procura e a especulação tenebrosa sobre QUEM é culpado por isso. Ora, vamos. Os donos da boate? A banda? Os 'poderes' responsáveis pelas liberações legais para que o espaço funcionasse? Se estava funcionando fora de padrões legais é porque alguém não estava fiscalizando direito. Se a banda usou o material que causou o fogo, sem 'saber ' que ali poderia acontecer um incêndio, alguém devia saber disso, além da banda, que, ao que se sabe, já fazia esse tipo de apresentação.

Agora dois homens de bem, sim, de bem até então, empresários, talvez amigos daqueles próprios frequentadores dali, de pais, irmãos, tios, são presos, execrados pela sociedade, tidos como algozes, cruéis, bandidos de ultima categoria, assassinos. Eu poderia estar no lugar deles também. Por que não? Quantas vezes vejo amigos com alguma 'pendência' legal em algum momento. Somos gente de bem, apenas completamente sem o menor senso preventivo. São culpados?

Aí vem as autoridades que deveriam fiscalizar, embargar, multar uma casa que estivesse ilegal. Advertir, fiscalizar, multar, embargar, isso, assim. Por que não se fez isso? Qual é a resposta? Será que já não temos essa resposta toda vez que saímos das nossas casas para ir a QUALQUER lugar? Sabemos que a displicência é a maior característica do brasileiro. Ele não liga pra prevenção. Ele transa sem camisinha, achando que jamais vai acontecer com ele uma DST ou uma AIDS.

Ele não usa cinto de segurança até hoje. Ele vai a estádios de futebol sem segurança, anda em estradas completamente sem sinalização e esburacadas, fica sempre esperando pelo outro prá dar aquele jeitinho brasileiro em tudo.  Eu faço isso. Eu espero a chuva cair para ver se tem goteira, aí a minha casa alaga. Eu espero o ladrão entrar prá depois trancar a porta. E depois fico chorando, lamentando a perda e botando a culpa nos gatos que detonam o telhado.

A sociedade precisa acordar. Eu preciso acordar. Preciso ver sim se o extintor do meu prédio ou daquele restaurante que gosto de frequentar está em dias com a sua manutenção. Preciso estar vigilante a todo momento sobre QUEM está acima de tudo que não depende de mim, no que se refere ao poder público. Quem eram aquelas pessoas ali? Uma eu, completamente displicente, que já fui em alguns lugares que hoje, lembrando, teria medo só de pensar em entrar, imaginando a falta de segurança, caso acontecesse alguma tragédia semelhante.

Muita dor, dor que vai demorar muito pra sarar. Se sarar. Vamos acordar desse sono, nós que somos brasileiros, independente do Estado que moramos. Somos os responsáveis pela fiscalização da fiscalização de todos os lugares que frequentamos, sejam igrejas, clubes, piscinas, casas de shows, hospitais, de tudo! Eu preciso acordar prá isso. Não que a gente vá viver na paranoia  mas consigo enxergar a bola de neve disso tudo. Em quem eu voto, por exemplo? Depois que passa a eleição eu vou lá atrás dele pra ver o que ele está fazendo?

Quais os setores responsáveis pela MINHA segurança? Estou ciente, conheço meus direitos e meus deveres? Quem é aquele amigo meu que faz aquela festa armengada, que sei que é gente do bem, mas que me diz que 'não tem problema não, não vai acontecer nada no espaço que é preparado para 300 pessoas, mas já foram vendidos 1000 ingressos'. Ora, um lugar aqui se dança e balança o chão do lugar, pela 'idade' da construção. Não vou mais, já avisei. Prevenção, cuidado conosco, com os nossos, ainda é o melhor remédio.

Talvez minha mãe não tivesse mesmo morrido se tivéssemos brigado mais com ela para que tomasse seus remédios de pressão. Talvez eu não a tivesse perdido, não ficasse procurando os culpados pela perda prematura. Talvez hoje aquelas pessoas estivessem aí, sorrindo, felizes, continuando suas vidas, cheias de desejos e sonhos. Sem procurar culpados, vamos nos culpar a nós mesmos. Vamos reclamar, protestar, ir lá, buscar conhecer, se prevenir. E toda culpa será perdoada, embora a dor nunca seja esquecida. 


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