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22 de abril de 2013

Censurar ou censurada?



"Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independente de fronteiras."
(Art. XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos)





Acho sinceramente que estamos voltando aos tempos de censura. Toda vez que me contraponho a alguma coisa agora, tenho RECEIO de dizer o que penso e ser processada. Antes me manifestava sobre o que EU penso, sem qualquer receio de levantar bandeiras e fazer qualquer apologia, nem angariar desafetos. Dizia, escrevia, apenas por dizer, por escrever, apenas para até desabafar. Discordo de amigos, de gostos, de sabores, sem animosidades maiores, mas agora, se hoje expressar minha opinião, seja no MEU blog, seja nas redes sociais, é um quiproquó, gente me deletando, querendo processar, rejeitando até relacionamento de qualquer natureza. 

Leio tanta coisa de tanta gente que até tenho admiração, afeto e respeito (ou não), sem precisar levar aquilo pro lado pessoal, mas a maioria hoje, não. Estamos voltando ao tempo da censura, eu aos 3, 4 aninhos de idade em que meu pai me mandava ir pro quarto porque eu não podia assistir 'Gabriela, Cravo e Canela' e aparecia aquela tarja preta na TV, é? Vou ter que ficar caladinha agora, para não 'ofender' aos afetadinhos de plantão, não é? Sempre tive uma personalidade contestatória, crítica e agora vou ter que mudar, por causa de alguns, não é?

E manifestar meu descontentamento com alguém, também não pode, não é mesmo? Não posso dizer DIRETAMENTE  a ela o que acho, o que penso, senão vou ser processada, vou ser rechaçada em seu nicho. Ah, é falta de educação. Não, de educação eu entendo. Sou educada, mantenho a minha postura e a minha compostura em dia, na medida do possível. Esse possível, vale dizer, é a medida aonde não pisam no meu calo. Pisar no meu calo significa invadir meus espaços. 

Aí vira um circulo, tipo, se eu invado um espaço alheio, estarei pronta a aguentar as consequências, certo? Pois é. Quando critico, falo, comento, digo coisas referentes e direcionadas a algo, é porque estou aberta a ouvir as contrapartidas. Por que as pessoas hoje são tão indiretas? Por que não chegam pro alvo e lançam o dardo? Funciona assim: eu falei, eu tenho que ouvir. Tenho algo contra alguém  essa pessoa quem vai saber, e vamos 'resolver' juntos o impasse. No meu tempo de criança a gente dizia que isso era 'não ser falso', 'falar na cara', essas coisas. Fofoca hoje é mais bonito, né?


“Aquele que a si próprio censura, espera que o contradigam.”

Hoje não. Com as redes sociais então, eu coloco ali que não gosto de determinada coisa, atinge lá uma criatura que ADORA aquilo, ou um coletivo que também adora e pronto. É uma celebração à autocomiseração coletiva e um pulsar coletivo para me julgar, condenar e crucificar. Aí eu tenho me calado. Tudo que penso em escrever, seja pro que for bom (porque quando gosto, gosto pra valer, divulgo, falo que é bom), seja pro que for ruim, seja pro que não me agrada, seja pro que me desagrada, tenho preferido calar. 

Estamos sobre uma nuvem cinza e pesada de dedos apontados constantemente sobre nossas cabeças. É uma censura velada, uma imposição de olhares críticos apenas para lhe processar, lhe colocar em situações ruins, mesmo o outro lado usando isso como defesa, porque sabe que é ruim mesmo ou vive já esperando que alguém lhe critique. Antes havia o medo pelo que se dizia, hoje, pelo que se pode fazer com o que se diz. Diferente de falta de escrúpulos e outros meios de degradação ao outro, como agressões verbais, exposição sem consentimento, respeitar o que o outro fala, apenas fala, é ainda uma premissa básica pros bons relacionamentos. Se eu não cito seu nome e você ACHA que é com você, sinta-se à vontade de vir me perguntar se é ou não com você. É isso que tem que haver, a LIBERDADE de expressão em vias de ida e volta e não apenas de ida.

Acho que é uma geração confusa, cheia de melindres, acostumada a uma pobreza de verdade, a uma riqueza de açoites de dissimulação, a uma falta de escrúpulos generalizada, que vem dos que a governam, passando pelos que a rodeiam em seu grupo. Um disfarce de politicagem, em que acabam se misturando demais, numa falsa aprovação de tudo, que cai numa falta de SINCERIDADE uns com os outros, abrindo portas para serem invadidos sempre e sempre. É contraditório, mas é isso que ocorre. Não posso mais dizer o que penso. Tá bonito isso. Pior que há uma certa agonia em ser aprovado ou não. Mas sabe o que é pior ainda? Eu não ligo e até acho bom quando se afastam de mim, dando uma dimensão bélica ao que eu disse, em contraponto ao que eu SOU. Pura demonstração de imaturidade e falta de coragem.

Há logo uma separação natural e eu gosto disso. Mas há que se ter CORAGEM de dizer, sim, de dizer dessa ou daquela forma, sem medos de que os afetados se afetem tanto ou que os que apenas lerão e depois chegarão para você e dirão, 'na lata' que o que você acha ou achou é insano, algo assim. Ou concordem! O que vejo é um bando de gente que espera muletas para dizer que o que você disse é legal ou não. Ah, se você concorda com aquilo e não tem coragem de dizer e eu digo..uau! Se lhe atinge, se você não gosta do que eu disse, é chorar aos gritos pros outros (que compartilharão do mesmo pensamento) para me achincalharem. O prazer está nisso.  

Eu só quero não ter medo de dizer nada, em tempos de liberdade de expressão. Mas tenho tido receio, mesmo vivendo num país onde há democracia e liberdade de expressão e imprensa. Ainda digo, escrevo, falo, mas tudo com receio e aí sou boicotada e me boicoto. Tudo mentira essa liberdade, tudo velado, mas, pró forma, ainda há. Vou continuar com medos, mas vou encontrar jeitos diferentes de ir dizendo, talvez usando as mesmas armas que a maioria está usando, a dissimulação. E tenho dito. 


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