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2 de abril de 2013

'Sempre notei que as pessoas falsas são sóbrias, e a grande moderação à mesa geralmente anuncia costumes dissimulados e almas duplas.'

(Jean Jacques Rousseau)



Estão sendo dias difíceis estes que estamos vivendo. Se meus avós reclamavam, se meus pais reclamavam, eram felizes e não sabiam. É muita violência circulante, é muita atitude explicitamente despudorada, quando se trata de relações e até mesmo de vivência no cotidiano. Tudo agora é na base da desconfiança. Eu desconfio até da minha sombra, preciso desconfiar, para que não seja passada para trás, para que não seja vilipendiada e achatada, humilhada.


É uma visível competição de egos, uma sorrateira estimulação ao mais terrível dos sentimentos que é o ódio, ao mais enfático achique, medo, provocado justamente pela desconfiança homem-a-homem. Ninguém relaxa mais. Ninguém mais entrega sua vida nas mãos de outrem e relaxa, dorme tranquilo. Ou sou eu que estou assim? As relações estão sempre condicionadas a uma prova, a um teste de aptidão do fica ou não fica, já que está sendo difícil demais encontrar alguém com escrúpulos, como havia no tempo dos meus avós.

Será que nos tempos mais antigos os escrúpulos eram subsidiados por alguma censura prévia? Tipo, faça o correto senão, ao perder a confiança, nunca mais terá também a minha dedicação. Tanto que os empregados nestas épocas duravam anos e quem sabe a vida inteira. Hoje não. Tudo é por um fio e as intenções parecem que são sempre condicionadas a leis, geralmente pragmáticas e cada vez mais distanciadoras.

Dias difíceis. Violência que circula ao nosso redor e assombra, fazendo afundar a liberdade de ir e vir. Mas, pior ainda, é ter que conviver com a pior violência, que é a dessa falta de ter com quem contar. E não temos por que não queremos ou por que não deixamos? Eu não deixo mais, por medo, confesso. E o medo dos que se mostram menos é maior ainda. Os que se mostram logo já recebem meu sim, ou meu não, mas os quietos demais, os sempre sorridentes, simpáticos, continentes, despertam minha desconfiança extrema, a ponto de eu querer correr léguas.

Mas, dentro desses detalhes de exoneração da vida que estamos passando, porque acho mesmo que a humanidade está num processo degenerativo, ainda contemplo talvez ainda as relações que podemos julgar mais próximas, de amigos que escolhemos como família, de alguns da família de sangue com quem podemos contar, com uma blindagem hodierna natural contra as formas de violência que nos circundam, enfim. Mas, a principal, é começar por mim, a continuar alimentando meus escrúpulos, minhas mais distantes intenções de vida simples e honesta, já que, disso, eu não devo ter medo.

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