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12 de outubro de 2013

Dia da criança - que fui.


Na fazenda do meu avô: Meu irmão em cima,
o filhinho do vaqueiro (loirinho), eu no meio e embaixo,
a filha do vaqueiro.
Era ficar horas deitada naquele travesseiro de mãe, sentindo aquele cheiro de mãe, cantando as músicas que ela me ensinou e tinha no caderninho, todo escrito a mão. Era brincar de esconde-esconde no quarteirão inteiro, sem medo de violência, com os cabelos desgrenhados. O único medo era o de voltar para casa suada demais e ter que tomar banho, de novo! Era nas férias ir para a fazenda, correr, acordar cedo e tomar leite do peito da vaca, subir em árvore, contar os bois, ir pro rio, pescar piabinhas, ter medo das vacas paridas, sentar naquela mesa farta, andar a cavalo. Acordar as 4 da manhã, com meu avô ouvindo os maiores hits sertanejos, que depois eu passava um tempão olhando as capas dos vinis, tentando entender como aquelas pessoas foram parar ali. Era sentar nas varandas, todos juntos, espalhados pelo chão, redes, cantando cantigas de infância ou músicas do cancioneiro brasileiro. Eu amava aquilo. Ver o céu estrelado demais e imaginar mil coisas sobre o céu e sob esse céu.

Era me pendurar no braço do meu pai. Era chamar minha mãe a noite com medo e ela dizer somente: 'Não tenha medo não, minha filha, não tem nada',  e só com isso, eu me acalmar. Era ficar descascando os alhos na cozinha, para depois as sempre ajudantes da minha mãe fazer os temperos. Era pedir ao meu pai para ir para a casa da melhor amiga, mesmo que essa melhor amiga morasse bem ao lado da nossa casa. Casa essa que, agora, adulta, imagino nem ser tão gigante assim. No meu olhar infantil parecia um castelo, enorme. O quintal parecia uma floresta, nunca totalmente explorada. Ali eu tinha as minhas mais engenhosas viagens. Ali eu domava os gatos mais bravos e os bichos mais 'selvagens', construía meus castelos, com piscinas construídas com restinhos de azulejos. Minhas bonecas eram privilegiadas em morar num lugar daquele.

Era brincar com a boneca mais feia, sem cabelos e braços, achando e sentindo como se fosse a mais linda. Era fazer comidinha naquele fogãozinho pequenininho, com uma velinha dentro, e ter a sensação de que estava alimentada mesmo. Era respeitar meus pais acima de tudo. Era temer qualquer atitude que contrariasse a boa educação que recebia cotidianamente. Era sentir as dores da minha mãe e do meu pai (e da família) quando elas apareciam, mesmo com um olhar infantil. Lembro-me que, uma vez, um amigo da família faleceu, pai de 4 filhos, todos com as mesmas idades. Foram todos lá para a nossa casa, porque lá teriam de nós a companhia infantil, para que não 'sofressem' tanto. E eu evitava rir muito (porque sempre fui muito risonha), já consternada pelo ocorrido.

Era ser muito, muito feliz. Para a sociedade, meus avós e pais  eram 'bem de vida' financeiramente, meu avô 'fazendeirão' do Sul da Bahia, mas para mim, era só a chance de me meter dentro daquele rio  e brincar, brincar e brincar. Era vivenciar, na sua completude, todas as correrias, brincadeiras, festejos, medos das tempestades, mas se sentindo protegida. Era não querer ser adulta e sim continuar ali, criança, sem pentear cabelo, sem se preocupar com o amanhã. Era ler os livros da infância e viajar entre as histórias, entre risos e agonias solitárias. Era ser Pollyanna sempre encontrando um motivo para sorrir e fazer o 'jogo do contente'. Era chorar apenas com as birras dos irmãos, numa tentativa de incriminá-los, apenas por manha de irmã caçula. Era sim, ser criança de verdade, com fita no cabelo e ordens para calçar os chinelos. Era jogar jogo de botões, gudes ou bola com meu irmão, sem ter que pensar em preconceitos de gênero. Era passar horas brincando com as minhas bonecas, ou, num quadro de giz, ensinar a minha amiga imaginária a ler e escrever, lhe dando broncas enormes, fazendo-a até chorar, porque eu sempre era a que mandava no pedaço.

Era ir dormir sempre recitando a oração que minha mãe nos ensinou, e que só entendi que orava errado, depois de adulta, por isso ia sempre dormir com um certo medinho de morrer: 'Agora me deito para dormir, guarda-me, oh, Deus, em seu amor. Se eu morrer OU SE EU ACORDAR, receba minha alma no céu, Senhor, amém!'- Eu orava assim: '..se eu morrer SEM ACORDAR, receba minha alma no céu, Senhor. Amém!'. E sempre batia aquele medo de morrer SEM ACORDAR. Mas acordava e ia lá, tomar café na mesa farta, ia para a escola e brincava de todas as brincadeiras mais lindas e saudáveis. Nas competições de beleza, eu ganhava, mas para mim era só mais um motivo para angariar mais amigos. Nada era com sentimentos ruins ou ambiciosos. Ou mascarados. 

Juro que não queria crescer. Queria ficar ali, sim. Mas não dá. A vida adulta está aí e só as lembranças, a educação, os frutos de uma infância maravilhosa, simples, de interior, de pessoas que só lhe deram do melhor quando o assunto é boa formação, ficam na memória e jamais serão esquecidos. No dia das crianças é disso que me lembro, dos presentes bem simples que ganhava (ou nem ganhava), mas que nunca senti tristeza por isso, porque no dia a dia tinha coleções de gibis, revistas, livros, brinquedos todos inventados e meus castelos todos, que, claro, jamais serão desfeitos.

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