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25 de fevereiro de 2014

Entretelasdeladora.


Pode não significar nada pra ela, mas para mim significou muito: ela me deu aquelas telas. Telas que foram pintadas num momento qualquer dela, de profunda introspecção pictórica, em que eu entrava em sua vida de forma abrupta e, quanto a mm, abortava uma vida inteira também de forma abrupta. Ela me deu suas telas e eu sangrei de alegria. Alegria e satisfação em bater de vez o martelo de que tudo valeu a pena. Aquelas minhas escolhas valeram a pena, nem que seja por ter conhecido um universo tão lindo, cheio de visões semelhantes às minhas, num estrangeirismo e desconforto social também semelhantes, só que muito, mas muito mais criativo, na teoria e na prática. Artista sem corpo, sem matéria, só alma e  arte, que fica em meus olhos, que me acalma, que sempre me faz reavaliar a vida e dar cada dia mais valor às coisas que devem ser valorizadas, com sobriedade.

Quando eu retirei as telas daquela parede, aliás, quando ela pediu que eu escolhesse se queria uma grande ou duas pequenas e ela mesma retirou, senti um enorme prazer e meu coração quase sai pela boca, porque eu jamais imaginei tê-las. Reconheço agora mais ainda meu valor, no que diz respeito a tantas coisas que um dia meus olhos não enxergavam. O tempo, tão efêmero, me presenteou com essa graça de ter em minha vida alguém e algo tão especiais. São duas telas que vão enfeitar a minha parede, vão caminhar agora comigo para onde eu for e me relembrarão sempre que valeu a pena. De alguém que a cada dia me demonstra amor e que para mim não tem corpo, é só alma, é só coração, fantasia e ludicidade. Sentimento de uma serena libertação do que 'deveria', do que 'se fosse assim'. Ah, sim, tudo, tudo aquilo valeu a pena e ainda vale.


A manifestação da 'desvontade' de ir e vir, semelhante, pelo passar dos anos. A vontade de se meter mais e mais na redoma do dentro de si. Não, quase ninguém entende, mas eu entendo porque sinto igual. É a sensação de que sabe o que é o sofrimento, a alma do artista, que a sensibilidade é o alimento diário. E a felicidade também, na plantinha, no sol, nos Vivaldis e na solidão preferida. Na sensação de que as pessoas não sentem mais pelas outras, apenas por si próprias. Sou agraciada, muito agraciada. Pode não significar tanto para os outros, mas para mim, ah, para mim, significa tanto que gostaria de parar de viver e ficar só aqui, ou lá naquele jardim, entretelas dela, da irmã, amiga, que Deus me deu.

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