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14 de março de 2014

Eva e Ela.

Chegou o momento na vida dela em que nada mais é como antes. Antes, Eva não falava sozinha. Sentia um vazio enorme no vazio e na multidão não se sentia só. Hoje ela se sente só na multidão. E Eva fala sozinha. Naquela árvore que não dá mais frutos ela sabe que não volta mais, porque simplesmente ali não dará frutos. O sabor do fruto Eva já conhece bem e lambe os lábios só de lembrar. Para que tentar? Sua sensatez beira a um Cubismo excêntrico e disforme, que nem Picasso saberia pintar. Chegou sim, o momento em que as coisas são zero ou 10. Se forem 7, 8, já não fazem sentido ou podem passar batido.

O momento é de acordar e ficar com os olhos fechados, olhando pro teto, num feriado mental eterno. Não, não há mais pressa em correr, arfar. Seus sentidos estão abertos às percepções mais idiossincráticas, mas sua mobilidade é pouca, vaga, lânguida. Ela quer cores em sua vida, cores, mas a tinta ela não vai escolher mais. Ela não quer ir mais tanto, ela quer ficar e ficar e ficar. Dos seus amigos relê o texto todos os dias de que não há mais sentido em alguns sorrisos e em alguns prantos. Nas dores ela faz a analgesia involuntária de que não existe dor quando não se pode sentir dor.

Se imagina nua sempre, correndo pela rua. Na rua, Eva se imagina nua, mas entre seus panos, se entrega libidinosamente, mas sem o menor gozo. Sente sua pele, mas não há mais pele. Pele que aguente a quentura da carne. Carne que suporte sua tez, sempre desnuda, para si mesma. Chegou seu tempo, de não mais acreditar no potencial que não existe. E chegou o tempo de não mais se enganar. Ela ri, ri e ri muito da desgraça alheia, da feiura alheia, da insensatez alheia, da vergonha alheia. Ela ri porque sabe que ri de si mesma e não poderia deixar de ser diferente. Ela ama. Eva ama.

Chegou o tempo da fartura de solidão e da complexa e ampla fartura de vontades que não sabe quais são. Nas desventuras, sabe que amanhã vai acordar de novo, e, inevitavelmente, sairá pela tangente, recobrará suas forças naquele gole de café quente, naquela sensação de vida que lhe aflige todos os dias. Sim, aflige, porque a aflição dos dias pode ser a aflição de pulsar e ser livre. E ser livre é aflitivo, amordaçante. Chegou o tempo da desvirginização dos hábitos. Eles todos tem que passar a ser comidos, velhos, enferrujados, até. Nada de maquiagem. Ela não usa mais maquiagem porque quer sentir o horror na face alheia, só para rir.

Chegou o tempo da mordaça, do leilão das coisas velhas, do enterro da porquinha que de velha já morreu. Chegou o tempo de Eva sem paraíso. Chegou o tempo de ser feliz sem saber nem como faz o bordado que disseram que tem que ser feito para isso. A sua nudez passa pela sensação de que o tempo chegou só para faze-la comer a maçã, antes que Eva volte. O retrô sempre volta e de repente Eva pode também voltar e querer que ela renasça de novo, mas, nem essa costela ela quer mais ser. Nem usar a roupa dela. Ela não tem roupa e não sabe o tempo que perdeu em não ser Eva. 

Um comentário:

Janaina Saback disse...

Uma delícia de leitura. Parabéns!