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3 de agosto de 2014

Mardedentro.

De vez em quando troco sim o barulho dos carros e os sons que a rua traz pelo barulho do mar. Só quem já dormiu em frente ao mar sabe fazer essa troca. E com a paz que essa fantasia me traz, parei para pensar em tantas coisas maiores que existem no espaço desse mar, ou lá dentro desse mar, que jamais conhecerei e minha mente limitada não alcança e nunca alcançará.

Mas se fechar os olhos por instantes, dá sim para trocar os sons. Da mesma forma, se fechar os olhos, consigo enxergar melhor aquilo que está só aqui dentro de mim. Coisas que absolutamente ninguém consegue ver, nem ouvir. Por mais que expressasse em palavras, não há como perscrutar o que existe aqui, aqui dentro, nesse vasto mar existencial. São seres raros de uma fauna quase em extinção, que me remete a dados tristes de outros seres, que, na cadeia alimentar da vida, querem destruir o que cultivo, cuido e mantenho aqui dentro.

No mar do meu ser passeiam e nadam seres invisíveis, brilhantes e sedutores. Entram dentro de pedras grandes e pequenas e simulam guerras entre si, numa brincadeira feliz e prazerosa. Nas conchas que ainda cultivo, as pérolas são lugar comum. Sim, não são raras, mas são as mais valiosas do mundo e só eu sei o valor delas. Não vendo nem dou de graça, deliberadamente. O azul do meu mar é límpido, clean. As fadas brincam com os fitoplanctons que tenho ainda ingenuamente encrostados nos umbrais do cérebro, fazendo com que brilhem meu caos na superfície, de vez em quando. Ou minhas alegrias.

Sou aquilo que ainda não consigo medir, uma profundez inatingível. Não há como mergulhar no meu mar, sem ter medo e eu própria tenho esse medo de dar esse mergulho, mas o faço com medo mesmo. Quando prendo a respiração e tento mergulhar, nado, bato os pés, me apavoro no medo de soçobrar e nunca mais voltar. Mas nesse mergulho, cada vez que me dou esse presente de mergulhar fundo e mais fundo, vou descobrindo esses novos seres raríssimos que habitam no meu mar.


E aí o mergulho fica assustadoramente lindo, mesmo tendo a certeza que preciso me manter viva para voltar à superfície do que chamam de vida. A vida para mim é esse mar aqui dentro, embora hajam os sons claros lá fora e aqui dentro seja escuro, como escuro é dentro do mar.  Só eu saberei das minhas pérolas, raras, cultivadas em conchas trabalhadas cuidadosamente pelo Criador. Alguns tentaram e tentam roubar algumas pérolas minhas, só minhas, mas não conseguiram, nem conseguem. Afundaram no mar do esquecimento, morreram afogados em suas intenções, sejam elas quais foram. 

Troco o barulho ao redor pelo barulho do mar, sentindo esperança no MEU MAR. Há barcos na superfície, ancoradouros e pontes lá do lado de fora, aonde posso ir e voltar, para os mais longínquos continentes. Ah, e a brisa? A brisa do mar, do meu mar, que respiro fundo toda vez que me falta o ar? O meu mar não é mar-solidão, mas maremoto. Ou um mar de rosas. Ou um mar de contemplações e sossego interiores. Troco o barulho ao redor pelo barulho do mar, de olhos bem fechados, para conseguir ser parte da natureza, mesmo cercada por tanta maldade, falta de respeito e desamor. 

E toda a riqueza marítima interior se mostra eficiente para desfazer em mim qualquer redemoinho ou maremotos que queiram me atingir. Consigo surfar nas ondas gigantescas que vem, em floaters perfeitos. Preciso fechar meus olhos e sentir assim. Ir lá no fundo do mar, buscar isso tudo, transformando meu coração numa concha com essas raras pérolas, que só eu poderei continuar a cultivar, sem interferências externas destruidoras, como sujeiras, poluição e lixo que queiram jogar dentro de mim. Estou de olhos fechados, dentro do mar. Do meu mar, brilhante e misterioso.

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