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20 de fevereiro de 2015

Carta aos filhos, hoje.

Naquela noite creio que ninguém dormiu. Da mesma forma que ela já passou várias noites em claro, seja por nós pequeninos, seja por preocupação natural de toda mãe. Naquela noite o telefone tocou e pulei da cama, sabendo que ela já estava no hospital e com morte cerebral. Talvez da mesma forma que ela já havia pulado da cama para trabalhar, para nos acudir, para suportar nossas dores e rir muito também com nossas alegrias e conquistas.
Naquela noite de 20 de fevereiro ela morria. Mas vejam só, meus filhos, todo mundo há de morrer um dia. Todo mundo morre. Mas uma mãe não deveria morrer nunca. Já li isso, que só as mães deveriam ser eternas. Mas não o são. E sabe, meu filho? Todos os dias me lembro dela, em como minha visão de mundo mudou depois que ela se foi, tão nova. Meu filho, não passaria um dia, um dia sequer que não dissesse a ela que a amava. Não passaria um dia sequer que não correria para sentir seu cheiro. Não passaria nem um dia sequer que não olharia cada sinal do seu rosto, cada ruga vindo. Mas se isso já não era tão possível naquele tempo, em que morávamos longe, imagina agora, com esse tempo insano, que nos consome.
Sabe meu filho, é que a vida nos ensina mais nos momentos mesmo de tristezas e perdas. E depois que ela, minha mãe, se foi, naquele 20 de fevereiro, há 23 anos atrás, senti que saberia perder QUALQUER coisa. Não estou aqui dizendo que a vida não continuou. Sim, continua. E como vocês tem suas  vidas, que eu acompanho, agora mãe, consigo também agora me sentir como ela, que ficava ali, de longe, orando, torcendo, nos deixando aprender a viver. Sendo filha, tinha o caminho mais aberto, do que agora, sendo mãe. Dentro de todos os meus erros como mãe, tentaria errar menos, ouvindo mais quem era minha mãe. Tentaria errar menos, sendo também filha, para ensinar mais a vocês, consequentemente.
E deve ser por isso que os filhos devem construir mais pontes que os pais, à medida que vão crescendo e vivendo suas vidas. Já construímos a principal ponte que nos foi concedido construir que foi o estar de vocês aqui nesse mundo. Já trouxemos à vida os tesouros que nos foram outorgados.  Minha mãe, aos 57 anos, se foi, nos deixou, partiu para nunca mais voltar e ficamos aqui, pontes sem aquele  horizonte, sem aquela construtora. Não há um dia sequer que não desejaria tê-la aqui, em um 'para sempre'.
A vida de vocês não me pertence mais, meus filhos, e a minha não pertencia mais à de minha mãe, mas, não há um dia sequer que meus pensamentos não estejam  interligados a vocês, assim como sei que os pensamentos dela também não saíam de nós. Sinto uma imensa falta da minha mãe e, inevitavelmente, um dia também irei partir. Na verdade, a força que tenho hoje, em muitos momentos, tenho a absoluta certeza, foi da força que tive que ter, ainda nova, na perda da minha mãe. Não quero aqui colocar um peso nos ombros de vocês, mas apenas abrir vossos olhos para que se fortaleçam diariamente, com o amor que tenho por vocês.
Porque hoje entendo que minha mãe seria, para mim, para meus irmãos, hoje, ainda, aquele ponto de partida, aquele pilar. Se já éramos sensíveis a ela, se a tivéssemos hoje, de volta, seríamos muito mais. Mas não a temos. Não entendemos muito bem o motivo de Deus tê-la levado tão cedo, mas aceitamos. E nos fortalecemos. E ficamos mais unidos. E caminhamos, entendendo mais das sutilezas da vida, cada um a seu modo.
Meus filhos, não sou mais filha de mãe viva, portanto, posso dizer dos dois sentimentos: há que se cuidar todos os dias dessa relação filho-mãe, enquanto há vida, há sopro. É que agora sei que naquela noite, tudo que eu mais queria era ser Deus, para mudar o curso da história. É que  sei o que é perder uma mãe e, claro, de forma simples, aqui, dizer que, só sabe quem passa. Fica a saudade e a ponte ali, sem mais idas e vindas, que só as mães sabem do que estou falando. E a vida continua. Só desejo que saibam que estarei sempre aqui, assim como minha mãe está. A diferença é só o cheiro, a presença constante, esse sentimento que não há igual, não tem para onde correr. Estou aqui, para pular da cama por vocês, sempre, meus filhos, espero que ainda por muito tempo e saibam, esse tempo é agora, é hoje.

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