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7 de agosto de 2016

Nó na garganta.


Andei o tempo todo com o nó na garganta. Sinto na pele a dor e o sofrimento de uma mãe e de um pai que representam o sentimento de inúmeros pais e mães, País afora. Ali, com o nó na garganta, vi os jovens que amam e querem amar sem preconceitos, sem discriminação. De cabelo cor-de-rosa, com seus piercings, com suas tatuagens, os que não curtem tatuagens nem piercings, mas gostam dos que gostam de tatuagens e piercings. O meu nó na garganta é também de vergonha. Vergonha de ver a contradição em que o ser humano se tornou. A cada passo que dou, sinto como se o chão se abrisse e eu me visse ali, no lugar de cada um que anda, juntos, por apenas um outro ser humano, ao qual também me coloco no lugar.

O chão se abre e eu vejo meus próprios defeitos, minha própria história de vida e me sinto envergonhada por tantas vezes julgar precipitadamente aquela menina linda de cabelo rosa, sem saber sua história, seus dissabores, suas alegrias, suas intenções. A minha auto dissecação também passa por aquela criança que fui, feliz, alegre, cercada de cuidado e amor, assim como foi a do ser humano objeto da minha manifestação ali. E se fosse eu sendo escrachada, maltratada, espancada? 

Minha auto comiseração passa pelo ponto de que eu sou todos ali. Meu filho também. Preciso respeitar mais as pessoas. Preciso parar de julgar mais as pessoas e, por isso, meu nó na garganta explode. Minha vergonha em julgar tantas vezes me coloca no lugar daquele espancador e, até chegar lá, preciso baixar minhas guardas e me perdoar por tantas vezes estar no lugar dele, mesmo não chegando às vias de fato, ferindo fisicamente e maltratando. Cada passo que dou mostra um filme. Um filme com vários personagens que eu maltratei e coloquei na UTI e, quem sabe, não cheguei a matar, mas feri.

É certo que existe o lado bom e o lado ruim de tudo que nos cerca. Coisa boa e coisa ruim. Comida boa e comida ruim. Veneno e remédio. Gente boa e gente ruim. Mas, se eu não conhecer, como vou saber? A comida ruim pro outro pode ser a delícia gastronômica dos deuses para mim. E eu preciso que respeite aquilo que eu gosto, se isso não lhe fere. Basta não comer do que eu como e respeite minha comida. 

Já fui maltratada algumas vezes e me senti sozinha. Ver aquelas pessoas ali, juntas, em prol de uma só, me emociona profundamente. Cada passo que eu dou coloca um espelho à minha frente. E choro porque são jovens amorosos, com os corações cheios de esperança, futuros, sonhos, onde o RESPEITO é a principal meta. Ouvi relatos vindos de jovens que não estão dentro dos estereótipos acentuadores de preconceito, mas mesmo assim já foram agredidos, por uma cor de pele ou por uma roupa que vestiam. O que me dá o direito de rechaçar alguém, o outro, por tais motivos? Quem sou eu na fila do pão para me colocar numa situação melhor ou pior do que o outro, ao ponto de bater, maltratar?

Repito, entendo que existem pessoas ruins, provocadoras, mas, o meu livre arbítrio, meu direito de ir e vir também me dá a liberdade de simplesmente optar em ter ou não essa pessoa caminhando comigo. Mas essa experiência tem que ser pessoal e será minha. Não posso obrigar o outro a ter a mesma postura. Ali, caminhando com várias pessoas em prol de uma só vida, tínhamos uma certeza em comum, a de que aquele menino foi injustiçado, maltratado por uma pessoa que precisa pagar por não respeita-lo e ir além do que um ser humano tem que ter em mente: nada justifica a violência, principalmente a embasada em abuso de poder. Falta  RESPEITO entre as pessoas e isso esbarra em limites.

Todos concordavam ali que o amor é a base de tudo. Me sinto sendo transformada a cada passo que dou. Cada jovem ali me deu uma sacudida, sem saber que estava fazendo isso. Preciso respeitar mais as pessoas. Preciso amar o rico, o pobre. Preciso aceitar que alguém é diferente de mim, que alguém ama diferente de mim, que as pessoas são diferentes. Isso pode parecer lugar comum, mas, infelizmente, os jovens estão sem esperança, perdidos, sozinhos, e isso me faz sentir muito, lamentar por um mundo que EU ajudei a criar, onde adultos ferem uns aos outros e a paz anda cada vez mais perdida. E me emociono em ver que ainda há esperança, por causa desses jovens ali, daquelas pessoas ali, caminhando comigo.

Aqueles jovens e aquelas pessoas ali estavam lutando e protestando por JUSTIÇA, por paz, e, muitas vieram agradecer por estarmos caminhando ali, juntos, como se eles estivessem sendo agraciados, sentindo-se acalentados, protegidos. Ao passo que, depois que entrei nessa empreitada de acompanhar esse caso, aprendi e fui muito, mas muito mais agraciada por eles do que eles por mim. 

Meus filhos, jovens como eu, mas ainda buscando muito mais certezas do que eu, precisam viver num mundo melhor e eu tinha muito pouca ideia de que estavam cercados de tanto amor. Poderiam ser eles ali no lugar do rapaz agredido e, por eu ser humana, num sentimento egoico, carregava mais ainda o tal nó na garganta.



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