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23 de fevereiro de 2017

bushed

Eu estou muito cansada. Mesmo, cansada principalmente porque não posso estar cansada. Eu não posso demonstrar cansaço porque preciso estar sempre forte, saudável, atenta, feliz. Mas estou cansada e gostaria de voltar lá atrás e sentar em frente a uma máquina de escrever, sem nenhum celular do lado, apitando, conectando, expectando minhas atenções, sofridamente. Estou cansada de tal forma que eu mesma saboto minha dores. Transformo as dores. Mudo uma ou outra de lugar apenas. Uma hora estou com aquela dor na coluna porque passo muito tempo sentada numa cadeira no trabalho que não foi projetada para mim. O labor que se faz porque gosta não é labor, é prazer, e não causa dor nem cansaço. Aí tomo remédios para a coluna e sinto dores no estômago por causa desses remédios para a coluna. A dor no estômago é acumulativa e, somatoriamente, são respostas às perguntas do meu cansaço. Recortes mentais de fantasmas alegres (e sempre descansados) me cercam, também me acusando, por causa do meu cansaço. Há que se lembrar de não se confundir cansaço com infelicidade. Nem com solidão. Nem com um monte de coisas pessimistas que as pessoas hoje se regozijam em confundir. É cansaço. Cansaço de pessoas falando demais, escrevendo bobagens demais, opinando demais sobre coisas que não sabem, de gente que não sabe dirigir, dirigindo - carros - e também suas próprias vidas. É de ver que estou num Big Brother sensacionalista, onde o diretor já montou todo o enredo e que, quem sabe, meu cansaço também já cansou todo o possível e provável expectador. E estou cansada de ser estrangeira numa terra sem leis. E cansada de afundar em discussões com quem também se acha estrangeiro mas é terreno demais. Camus se arrependeria das coisas que disse e se cansaria também. Mas não posso estar cansada. Nem sei porque estou escrevendo aqui nesse blog, que já foi palco de tantos textos bons e ruins e de tantos desabafos (Cansados, prematuros ou não). Fiquei capitaneando por muito tempo os olhos ao meu redor e percebi que a internet é um mar traiçoeiro, cheio de piratas mais traiçoeiros ainda, prontos para lhe atacar. Desisti de expor meus calafrios verbais, já que a internet pueril que eu expunha antes se transformou numa velha doente febril sempre acima de 40 graus. Se antes poucos e selecionados olhos 'me' liam aqui, agora TODOS os olhos me leem e isso é assustador. Crise de pânico virtual. Sociopatia virtual. Tudo sai do real e salta para a tela (e vice-versa), tensionada pelo nível do meu cansaço. A vontade do bucólico é só cansaço. Cansaço do que se transformou a humanidade. Humanidade violenta, destruidora, que varre a sujeira (e os cansaços) todos para debaixo do tapete e não aceita aceitar seus cansaços. E serei acusada por causa do meu cansaço, já espero isso. "Cansada de que??". De mim, pronto. Chega, pára de apontar o dedo e se preocupe só com você. Aí estou sendo egoísta, indelicada e vou morrer velha e só, como já ouvi de alguém que hoje sei que não nasceu para absolutamente nada nesse mundo, nem para morrer velho e só. Estou cansada até de lembrar. Meus respeitos aos que não se cansam, já que não vieram ao mundo para nada, nem para, inquietantemente, estarem cansados. Uns inúteis que nem se cansam. E eu estou cansada aqui, sem noção de quando esse cansaço vai passar, apenas cansada. Dormir não passa meu cansaço, já que terei que acordar e eu só queria ficar dormindo por muito e muito tempo e acordar em outra época, para tentar resgatar as sensações de como é estar descansada. Descansada, sem problemas, sem preocupações, sem desgastes inúteis. Descansada, sem pensamentos. Fim do texto, cansei.

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http://dramarcellabrasil.com.br/cansaco-cronico-o-mal-do-mundo-atual/

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