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8 de março de 2018

Sinal verde.

Quando estou como passageira no carro não gosto de correr.  Fico com medo de velocidade, aperto o pé como se estivesse freando, num movimento automático que qualquer motorista ao meu lado percebe. Se estou no banco de trás fico sempre imaginando que a velocidade está mil vezes maior do que a que realmente está. Sou avessa a qualquer sinal de adrenalina. Não brinco em roda gigante por medo e acho iluminadas as pessoas que praticam esportes radicais ou conseguem se divertir em brinquedos também radicais nos parques de 'diversão'. Tomo susto com freadas bruscas e as vezes assusto sobremaneira alguns motoristas.

Quando estou na direção, perco a paciência quando me percebo a 20, 30km, coisa normal nas vias principais da cidade onde moro. Comparo mesmo as vezes a uma procissão ou a uma fila de enterro a forma como os motoristas dirigem e excomungo até a ultima geração do ultimo da fila na minha frente, enquanto não consigo passar. Sempre saio em primeiro lugar quando o semáforo muda para o verde. Sinto vontade de sair dali, correr, voar, se fosse possível. E sei bem dirigir. Aprendi sozinha e sou absurdamente atenta, cautelosa, obediente a sinais e normas e condutas no trânsito. Dou setas nas horas certas e nunca uso o celular quando estou com o carro em movimento.

Me vejo praguejando e odiando alguém que não age assim como eu. Ora, essa, como pode não dar setas, não prestar atenção quando o sinal abre e dirigir falando ao celular, atrapalhando a vida dos outros? Minha intolerância passa por evitar horários e vias mais movimentados e, tipo, ser contra liberar porte de armas aos civis. É para rir mesmo. Não poderia jamais andar armada, reconheço, sem a menor sombra de hipocrisia. 

Ainda bem que minha vida não é sempre dentro de um automóvel ou tendo que dirigir um carro, embora saiba que precise bastante, sendo catapultada para dentro de mim: corra!
Também não tenho que andar sempre de passageira, confrontando a mim mesma: não corra.


Eu, coadjuvante na vida. Eu, protagonista na vida. O outro: minha visão. Só sou expectadora das minhas confusões e nas duas situações  minha vida se passa em um mundo paralelo, onde preciso saber exatamente onde está o muro que separa minha emoção da minha razão. Nessa analogia boba, passo de detentora de todo poder sobre mim a uma pobre criatura indefesa. Penso nisso mais por causa do meu bem-estar, o que redundará no bem-estar do outro. Sou veloz e medrosa. Sou forte e fraca. Sou boa e ruim. Sou firme e mole. Sou certa e errada. Sou viva e morta. Sou mestra e aluna. Sou o outro e sou eu. 

Preciso saber parar. Preciso deixar o outro andar. Preciso saber seguir leve. Preciso confiar mais. Preciso aceitar mais. Preciso respirar mais fundo e abstrair mais as situações que me parecem procissões. São parte da teia de Deus que não me deixam correr. Tudo será no tempo certo. A passageira precisa confiar, a motorista precisa desacelerar. A pessoa precisa se acalmar, para sobreviver. Para viver, para andar, para um dia, parar. 

Para estar aqui e escrever. Sem medo. 
E nunca mais parar.




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