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27 de dezembro de 2010

O gato mia.

Raul voltou pra casa dele. Comeu legal, dormiu, brincou, se divertiu, mas não era aqui o lugar dele. Também, nossa relação já não estava lá essas coisas, já que ele insistia em fazer a necessidades fisiológicas dele num só lugar e eu já estava detestando ter que limpar, tendo ânsias de vômito. Também, afora ser um felino, com seu ar sempre imponente e independente, já imprimia uma certa dependência com relação à minha pessoa, e isso me exaspera. Não gosto que ninguém nem nada seja dependente de mim.

Raul, o gato, entrou aqui em casa porque estava faminto e eu não gosto de ver nenhum ser vivo com fome. Como adoro gatos, peguei um certo dia para dar comida, mas sabia que era da vizinha. Hoje a vizinha retornou de viagem e veio me pedir o gatinho de volta, após 5 dias em que o bichano estava comendo ração de primeira e brincando muito comigo. Bem, claro, eu entreguei de bom grado. 

Tive de novo a certeza de que todas as relações tem seus ônus e bônus. Eu já estava me preparando para devolve-lo. A relação já era clara desde o início: eu não me apegarei a voce, Raul, e voce aproveitará cada minuto por aqui. Tudo combinado. Confesso que comecei então, como sempre, na minha eterna pré-disposição para a prática do desapego, a evidenciar os defeitos de Raul. Foi legal enquanto durou e juro que senti uma satisfação imensa em devolve-lo à sua dona, contrariando a algumas pessoas que insistiam que eu iria SOFRER. É que não nos 'enganamos', nem eu a ele, nem ele, a mim. Não desenvolvi expectativas e com certeza, nem ele por mim.

Não sofro mais por esse tipo de perda, quando sei que a 'pessoa' em questão não retirou nada de mim, antes, me fez feliz, nem que seja por um tempo. Sofro apenas quando sei que a perda foi brusca, involuntária,  ocasionada por morte, por um indesejado afastamento repentino. Em linhas gerais, não sofro também, embora ainda me espante, se  foi provocada por um estranho e impertinente ruído na relação e, se vejo incompatibilidade de tratamento, meu desapego tem a mesma velocidade do apego. É, porque me apego, sim.

Não me incomodei em devolver o gato, porque, antes de tudo, ele é um animal irracional, mas talvez me incomodaria em ter que 'devolver' alguém em que confiei, depositei nessa pessoa minhas energias, minha confiança, minha ternura, meu tempo e essa pessoa simplesmente virasse as costas pra mim e dissesse que agora queria 'voltar' pros seus donos antigos. Ou talvez nem dissesse, simplesmente sumiria, sem dar nenhuma satisfação ao que havia entre nós, como pessoas, racionais, afetivamente ligadas, houvesse ou não dependência emocional.

Com essa 'ida' do gato, pensei que eu tambem posso trabalhar essa minha veia egóica, possessiva, centralizadora, com algumas pessoas, quando vejo que o apego está se aproximando. Que eu tenho que aceitar (de novo essa infame auto-avaliação) que as pessoas são livres para fazerem, irem, estarem, amarem, desejarem, o que quiserem, independente de valorizar essa baboseira de 'relação'. Independente de mim! Que elas tem o direito de fazer o que querem e eu que me dane. Que eu que me dane com meus valores, em valoriza-las, em achar que tenho que ter reciprocidade em amor, em carinho, em sinceridade, em honestidade. Que eu tenho que dar amor, sem olhar a quem, sabendo que a qualquer momento serei sim, até sacaneada por alguem que eu jamais esperaria que fosse.

Da mesma sorte, tenho que acordar todos os dias trabalhando minha veia ruim. Já pratico o desapego sim, e não desenvolvo expectativas demais, mas percebo que ainda 'sofro' um pouco, estarrecida com algumas pessoas (humanos) que simplesmente sacaneiam com outras, sem a menor pena. Estarrecida com pessoas que mostram ser uma coisa, e são outra, me fazendo acreditar na sua pele de cordeiro, quando sua alma é de lobo. Devorador, voraz, feio e oportunista. Se 'meu' gato falasse, talvez ele ao menos teria agradecido os dias que passou aqui comigo e foi tão bem tratado, com a melhor ração, os melhores tratos, carinho e porque não dizer, amor. Ele teria me dado ao menos um abraço e dito que eu fui para ele uma salvação em época de fome, na falta dos seus donos de verdade. 

Algumas pessoas invadem sua vida, comem, bebem, se refastelam em seu sofá, entram em sua alma, sempre na espreita do que voce tem de melhor para oferece-lo, apenas pelo prazer sórdido de escavar suas entranhas e retirar o que de mais generoso há em voce. Depois, viram as costas como se voce tivesse tido a obrigação de fazer isso, sem dar sequer um obrigado, não no sentido legal (de lei) de ser, mas no sentido afetivo-emocional. Não com a palavra em si, mas com o coração na frente, fazendo voce acreditar que ainda existe amor e sinceridade nos corações. 

Eu simplesmente peguei Raul nos braços, ainda quentinho de estar dormindo em meu sofá e entreguei à dona (que tenho certeza o trata não tão bem como eu o tratei), junto com a ração que eu havia comprado. Pedi apenas que não deixasse ele fugir mais, já que gatos são ariscos. Ela até riu e disse que os filhos iam ficar felizes com o retorno de 'Alf' (esse era o nome dele). Numa analogia sem nenhuma espécie de ceticismo e o mais passional possível, adoraria poder ter o mesmo poder de 'organizar' algumas relações que eu já tive, sejam fraternas, afetivas, ou quaisquer que sejam. Eu devolveria aos verdadeiros 'donos', assim que a relação começasse, apenas pra que não houvessem decepções, como ainda, muitas vezes, tenho. 

Se o gato falasse, com certeza ao menos voltaria aqui e me diria que valeu (parafraseando Chiclete com Banana). Eu tambem digo que valeu e agradeço por ele ter me feito feliz por alguns dias. E pronto. Não existe sofrimento e não existem rasuras. Vamos seguir em nossas vidas ilibadamente, com dignidade e sempre prontos a sermos generosos e nos relacionarmos bem com quem quer que seja. É o que eu espero quando me dôo em amor. É o mínimo que espero dos seres humanos... 

...que sabem falar.

Um comentário:

Cria disse...

Um texto muito verdadeiro e de muita beleza, parabéns, Helena ! Beijos, que tua semana seja feliz e o Novo Ano que se aproxima seja de momentos bons.